quarta-feira, 14 de maio de 2008

Amazônia, Capitalismo e a Praçinha do Vital Brazil

A Praçinha do Vital Brazil é um lugarzinho do bairro (de mesmo nome), em Niterói, bem bonitinho, quando olhado de perto. Existe o interesse de se levar artesãos da cidade para, ali, exporem os seus produtos, o que deveria ser pensado com carinho. Está clara a necessidade de preservação daquela área arborizada. Lembrando a Campanha da Fraternidade de 2007, sobre a Amazônia, um dos sub-temas pode ganhar destaque: o da preservação da vida, naquela floresta. Da maior área de biodiversidade do mundo, motivo da campanha, passamos à praçinha, onde existem alguma vegetação e, principalmente, vida humana. Entre os dois assuntos será levantada, brevemente, uma discussão sobre o aproveitamento econômico daquela micro-região.

A vida na grande Floresta Equatorial brota com facilidade. Mas se perde o tanto quanto. Este parece ser o regime de uma natureza selvagem. E não é de fácil adaptação humana, já que demonstra uma inconstância incompatível com a necessidade de criar raízes fortes. Mas a mesma água abundante de difícil represamento possui grande regularidade, por exemplo, em seu regime de chuvas. Da mesma forma constante, a riqueza de recursos hídricos, associada talvez a uma temperatura quente favorável, pode promover um ambiente muito apropriado a geração da vida, que agora torna-se mais preservada , diferente do que foi dito antes. Por fim, o meio aquático de água doce que impera, associado a outros fatores, proporciona um ambiente ideal para o desenvolvimento de uma maior biodiversidade. Portanto, partimos da total imprevisibilidade para chegarmos a uma forte característica de permanência (onde deixamos para trás grandes contrastes) possibilitadas pela presença do elemento água.

Passando pelas peculiaridades da Amazônia pode-se, já, tratar da preservação da vida humana. O que foi dito sobre biodiversidade e recursos hídricos, em boas quantidades, foi para melhor fundamentar um debate sobre controle ambiental, este que pode levar a um uso mais sofisticado dos conceitos. O objetivo é tornar mais racional um olhar sobre pequenos espaços, neste caso a nossa praçinha, tanto mais quanto melhor for a sua ocupação qualitativa por pessoas humanas.

É a partir desta discussão preliminar que apresentamos o tema do artesanato na praça. E trata-se de um espaço de convivência, não de um terreno abandonado. Aquele local não é uma sobra de terreno (a não ser quando olhado de um ponto de vista pouco criativo) da cidade que se desenvolveu. Ao contrário, é um cantinho que merecia ter acompanhado o ritmo de crescimento da economia regional, tendo, é óbvio, a sua preservação garantida. Mas, quando o assunto é economia, não é de interesse ir fundo, ao menos aqui, no desenvolvimento de um tema que remete a um capitalismo construtivo ou destrutivo. Apenas nos detemos, e não por falta de opção, em um capitalismo não tão acelerado quanto o que parece, em algum momento, levará a cidade a tornar-se um lugar não habitável, dado o seu alto nível de poluição. Portanto, o artesanato é satisfatório. Pode vir a ser uma forma de ocupação do espaço favorável a comunidade do entorno, não funcionando contra ela.

Finalmente, uma praça favorável a vida, e não reprodutora de padrões de violência, pode, sim, servir para tornar a cidade mais harmônica quando esta for confrontada ao seu próprio meio ambiente. Principalmente, se, sobre aquele pequeno terreno, os freqüentadores se deixarem levar pela maior lentidão relativa no ritmo da vida, quando uma das tendências é o meio urbano tornar-se imagem e semelhança de um meio virtual (com comunicação instantânea, o que nem sempre é bom). Para que a Praçinha do Vital Brazil seja favorecida, plenamente, por uma melhor ocupação do território, além do seu uso econômico favorável, seria interessante observá-la armado pelas lentes do controle ambiental. E, valeria a pena “perder”, na verdade ganhar, algum tempo por ali.
----------------------------
artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste.

Capitalismo, meio ambiente e participação

O sistema capitalista tem sido analisado, na história, como um modo de produção que leva pouco em consideração um modo de consumo. Traduzindo, a comunidade humana, mobilizada por esta força bem produtiva, por meio da qual constrói a sua morada terrestre, tem dado pouca importância ao fato de que a sua própria existência (a humana) é perecível. Ou seja, ela desconsidera a vida que é consumida cotidianamente. Não seria melhor enxergar que a vida pulsante também está para acontecer no mesmo cotidiano (aparentemente) sem importância? E que este desabrochar depende de nossas ações infinitamente pequenas? Certamente. Partimos de uma crença franciscana sobre a qual vale a pena investirmos nossas energias.

Torna-se necessário tratarmos desta crença em si mesma. Ela é, sem dúvida, inspirada em modernas e sofisticadas concepções de holismo. Este é uma noção influenciada por religiões orientais e a própria ciência física mais moderna. São ciências que nos permitem reduzir todos os grandes fenômenos do universo à condição de muito pequenos (com tendência ao infinitamente pequeno, o mais micro de todos) fatos da vida sobre a Terra, assim como pequenos são os passos de uma formiguinha. Mas, o aspecto baseado em uma moderna teoria dos rituais pode tornar esta dinâmica macro/micro mais compreensível e permití-la estar sensível à nossa presença favorável. Falo dos estudos do antropólogo Victor Turner. Para este, no contexto dos rituais, no momento mais marcado pelas características de uma fase dos ritos de passagem, a fase liminar , tudo o que é associado à símbolos de status superiores, para uma determinada cultura, vem fazer parte da fantasia dos atores sociais da mais baixa classificação, nos termos desta cultura. Da mesma forma, para ele, neste instante, as fantasias dos homens (e mulheres) que ocupam posições de alto poder na estrutura social cotidiana ganham as cores e formas dos elementos indicativos da inferioridade social ou cultural. Isto é o que Turner chama de ritos de reversão de status. Este drama social permite a quem está situado nas camadas superiores da hierarquia estruturada descer para experimentar estar situado abaixo de todos. Igualmente, é possível a ascensão social, mesmo do mais rebaixado da hierarquia, à mais alta e distinta classe. Essa teoria, enriquecida pela contribuição desta reversão, tem de inovadora o fato de ser uma formulação para a ação. A reversão criativa para a ação é quando deixamo-nos humilhar, se somos possuidores de grandes projetos de mudança social, e também fantasiamo-nos de poderosos se, na verdade, somos seres insignificantes. É o sonho, em uma psicologia motivadora, que torna gestos, aparentemente sem importância, elementos para uma real transformação. É o poder que cremos possuir em pouquíssimas quantidades, mas que podemos também crer são grandes feitos da coletividade reunida, em volta de si mesma, para já não ser igual. A crença de que trato aqui, que faz parte de um ritual renovado por uma prática franciscana, faz do pensamento micro/macro algo não estático, mas sim mobilizador. Uma cultura que antes se enquadrava em uma determinada estrutura passa por um tempo de suspensão estrutural para alcançar, por fim, outra forma estruturada. Peço perdão pela repetição do termo, mas o que importa é a noção que quero veicular, não o termo.

Este texto refere-se ao capitalismo como pretexto para tentar demonstrar o processo de não percepção da vida que se perde de forma banal. Não será possível alongar esta análise sobre o sistema. Mas torna-se um imperativo um olhar sobre o nosso consumo cotidiano e as vezes excepcional. Uma vida refeita extraordinariamente, mas também a cada dia, pode não apenas preservar o que de melhor há em nós, como também fazer do nosso meio ambiente algo favorável à nossa ação. Ou, melhor ainda, pode impedir que sejamos barreira para um desenvolvimento que já ocorre, harmoniosamente, queiramos ou não. Certa é a força transformadora desta natureza vigorosa, fora ou dentro de nós, perante a qual colocamos obstáculos. Basta lembrar a grandiosidade de algumas catástrofes naturais e de sua capacidade de instaurar uma nova ordem vital bem mais criativa que a que se perdeu. Podemos começar a perceber a nossa pequenez diante do potencial de vida existente no meio ambiente circundante e até fisicamente distante. E, então, estamos mais dispostos a transformarmos a nós próprios e também mais aptos.

---------------------------------

artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste.