quarta-feira, 14 de maio de 2008

Capitalismo, meio ambiente e participação

O sistema capitalista tem sido analisado, na história, como um modo de produção que leva pouco em consideração um modo de consumo. Traduzindo, a comunidade humana, mobilizada por esta força bem produtiva, por meio da qual constrói a sua morada terrestre, tem dado pouca importância ao fato de que a sua própria existência (a humana) é perecível. Ou seja, ela desconsidera a vida que é consumida cotidianamente. Não seria melhor enxergar que a vida pulsante também está para acontecer no mesmo cotidiano (aparentemente) sem importância? E que este desabrochar depende de nossas ações infinitamente pequenas? Certamente. Partimos de uma crença franciscana sobre a qual vale a pena investirmos nossas energias.

Torna-se necessário tratarmos desta crença em si mesma. Ela é, sem dúvida, inspirada em modernas e sofisticadas concepções de holismo. Este é uma noção influenciada por religiões orientais e a própria ciência física mais moderna. São ciências que nos permitem reduzir todos os grandes fenômenos do universo à condição de muito pequenos (com tendência ao infinitamente pequeno, o mais micro de todos) fatos da vida sobre a Terra, assim como pequenos são os passos de uma formiguinha. Mas, o aspecto baseado em uma moderna teoria dos rituais pode tornar esta dinâmica macro/micro mais compreensível e permití-la estar sensível à nossa presença favorável. Falo dos estudos do antropólogo Victor Turner. Para este, no contexto dos rituais, no momento mais marcado pelas características de uma fase dos ritos de passagem, a fase liminar , tudo o que é associado à símbolos de status superiores, para uma determinada cultura, vem fazer parte da fantasia dos atores sociais da mais baixa classificação, nos termos desta cultura. Da mesma forma, para ele, neste instante, as fantasias dos homens (e mulheres) que ocupam posições de alto poder na estrutura social cotidiana ganham as cores e formas dos elementos indicativos da inferioridade social ou cultural. Isto é o que Turner chama de ritos de reversão de status. Este drama social permite a quem está situado nas camadas superiores da hierarquia estruturada descer para experimentar estar situado abaixo de todos. Igualmente, é possível a ascensão social, mesmo do mais rebaixado da hierarquia, à mais alta e distinta classe. Essa teoria, enriquecida pela contribuição desta reversão, tem de inovadora o fato de ser uma formulação para a ação. A reversão criativa para a ação é quando deixamo-nos humilhar, se somos possuidores de grandes projetos de mudança social, e também fantasiamo-nos de poderosos se, na verdade, somos seres insignificantes. É o sonho, em uma psicologia motivadora, que torna gestos, aparentemente sem importância, elementos para uma real transformação. É o poder que cremos possuir em pouquíssimas quantidades, mas que podemos também crer são grandes feitos da coletividade reunida, em volta de si mesma, para já não ser igual. A crença de que trato aqui, que faz parte de um ritual renovado por uma prática franciscana, faz do pensamento micro/macro algo não estático, mas sim mobilizador. Uma cultura que antes se enquadrava em uma determinada estrutura passa por um tempo de suspensão estrutural para alcançar, por fim, outra forma estruturada. Peço perdão pela repetição do termo, mas o que importa é a noção que quero veicular, não o termo.

Este texto refere-se ao capitalismo como pretexto para tentar demonstrar o processo de não percepção da vida que se perde de forma banal. Não será possível alongar esta análise sobre o sistema. Mas torna-se um imperativo um olhar sobre o nosso consumo cotidiano e as vezes excepcional. Uma vida refeita extraordinariamente, mas também a cada dia, pode não apenas preservar o que de melhor há em nós, como também fazer do nosso meio ambiente algo favorável à nossa ação. Ou, melhor ainda, pode impedir que sejamos barreira para um desenvolvimento que já ocorre, harmoniosamente, queiramos ou não. Certa é a força transformadora desta natureza vigorosa, fora ou dentro de nós, perante a qual colocamos obstáculos. Basta lembrar a grandiosidade de algumas catástrofes naturais e de sua capacidade de instaurar uma nova ordem vital bem mais criativa que a que se perdeu. Podemos começar a perceber a nossa pequenez diante do potencial de vida existente no meio ambiente circundante e até fisicamente distante. E, então, estamos mais dispostos a transformarmos a nós próprios e também mais aptos.

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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste.




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