As feiras urbanas possuem a marca das relações pessoais. Há uma forma de relacionamento entre feirantes, compradores e outros que cuida sempre do acolhimento dos visitantes. Em um supermercado, de uma grande rede, o tratamento pode ser o mais impessoal. Mas entre as bancas, fechando a rua, a feirinha não permite o anonimato. Sempre é preciso conhecer alguém.
O comprador pode ser recebido com um aperto de mãos e ser lembrado, pelo vendedor, do contato da semana anterior. Um homem, que oferece melancia, espera do consumidor uma prova do seu produto. Um pedaço da fruta é ingerido ali mesmo, e de graça, como uma forma de estabelecer um elo de confiança. Não pode ser recusada a delicadeza. Algumas feiras são vistas como comércios de bairro, pois não são muito distantes das residências das pessoas. A relação de vizinhança traz qualidades que só são encontradas no costume de ir fazer compras no local em questão. É possível transitar pelo lugar com trajes domésticos e os próprios vendedores podem estar vestidos com bermudas e chinelos. O jeito menos formal de vestir-se lembra facilmente a proximidade física do local e esta propriedade geográfica implica uma série de características: não é necessário, em alguns casos, o uso de carros ou ônibus para chegar até lá; a descontração é a mesma que ocorre entre vizinhos que se conhecem a muitos anos; ir até lá pode não ser o único objetivo do comprador, mas o passeio em si mesmo pode ser mais importante do que atingir o local definido no espaço. A facilidade do acesso dos vizinhos pode provocar nestes um comportamento igual ao das pessoas que interagem dentro da sua própria cozinha: carregando nas mãos as raízes de aipim como se tivessem acabado de colhê-los em uma horta doméstica; o vendedor explicando para o morador, por sua própria iniciativa, a forma como deve ser cozido o alimento; o produto sendo apresentado para a compra tendo sido cortado na frente do interessado. A barraca com as raízes fica bem no miolo da feirinha. Existe uma concorrente que fica localizada na saída do lugar, em uma esquina, onde termina o movimento. Fica muito exposta ao movimento de carros e ônibus e o feirante não se preocupa em chamar a atenção dos consumidores. A banca de dentro parece ser mais integrada ao ambiente de intimidade. Terminada a negociação, o vendedor abre mão de centavos, arredondando o preço, para receber uma nota de cinco reais das mãos do comprador. Mas fica de olho na mão dele em um olhar furtivo e ostensivo. Quer logo “botar a mão no dinheiro”. No caso da venda de feijões o produto fica exposto, em quatro qualidades distintas (mulatinho, vermelho, manteiga, etc), na forma “a granel”. Diferente do supermercado, que oferece o alimento embalado em uma prateleira com marcas distintas dispostas lado a lado, ali o que ocorre são caixas em paralelo, não tão bem alinhadas uma com a outra, e um “pegador” de metal único que serve para todas simultaneamente. Há, no mercado, uma padronização para a apresentação da mercadoria, mas no comércio, na rua, cada vendedor arruma o produto de acordo com o seu gosto pessoal. O uso do termo “fazer feira” é bem diferente do “ir ao supermercado”. Pois quem “faz a feira” são as pessoas e este costume não está tão associado a um espaço delimitado como é o supermercado.
Na grande rede capitalista, ocorre não muito mais do que um “bom dia” ou “boa noite”. Não há praticamente vínculo pessoal entre visitantes e funcionários. A probabilidade dos encontros serem inéditos é de quase cem por cento, pois mesmo que o atendente seja mais antigo na rede o seu rosto não é lembrado. O interessante é que uma forma de memorização destas pessoas pode dar-se quando estas estão associadas a um produto ou espaço específico no local. Então, fulano pode ser parecido com “o atendente que corta a carne em um canto no fundo do corredor”. Ele está sempre naquele lugar realizando a mesma tarefa. Pois ocorre assim também com o feirante que faz um trabalho parecido por detrás a uma bancada específica. É mais fácil guardar a cara do homem da feira, aquele que apela para licenciosidades, do que a do funcionário.
Merece um sorriso o vendedor que interrompe o passeio de alguém na rua. Ele parece receber um visitante em sua casa, tamanha a sua gentileza de demonstrar estar a serviço. Age como um intermediário entre a rua e a “casa”. Não haveria problemas no seu interesse de vendas, pois se recebesse o cliente em casa ofereceria um café. Na rua prevalecem as relações impessoais, mas ali dentro são as pessoas que contam e não os indivíduos. Ninguém fica só, naquele lugar. A forma pessoal difere da interação individual. O “ambiente caseiro” proporcionado entre as barracas espera a reciprocidade dos visitantes. Basta acenar com um gesto que expressa uma intenção de troca.
O comprador pode ser recebido com um aperto de mãos e ser lembrado, pelo vendedor, do contato da semana anterior. Um homem, que oferece melancia, espera do consumidor uma prova do seu produto. Um pedaço da fruta é ingerido ali mesmo, e de graça, como uma forma de estabelecer um elo de confiança. Não pode ser recusada a delicadeza. Algumas feiras são vistas como comércios de bairro, pois não são muito distantes das residências das pessoas. A relação de vizinhança traz qualidades que só são encontradas no costume de ir fazer compras no local em questão. É possível transitar pelo lugar com trajes domésticos e os próprios vendedores podem estar vestidos com bermudas e chinelos. O jeito menos formal de vestir-se lembra facilmente a proximidade física do local e esta propriedade geográfica implica uma série de características: não é necessário, em alguns casos, o uso de carros ou ônibus para chegar até lá; a descontração é a mesma que ocorre entre vizinhos que se conhecem a muitos anos; ir até lá pode não ser o único objetivo do comprador, mas o passeio em si mesmo pode ser mais importante do que atingir o local definido no espaço. A facilidade do acesso dos vizinhos pode provocar nestes um comportamento igual ao das pessoas que interagem dentro da sua própria cozinha: carregando nas mãos as raízes de aipim como se tivessem acabado de colhê-los em uma horta doméstica; o vendedor explicando para o morador, por sua própria iniciativa, a forma como deve ser cozido o alimento; o produto sendo apresentado para a compra tendo sido cortado na frente do interessado. A barraca com as raízes fica bem no miolo da feirinha. Existe uma concorrente que fica localizada na saída do lugar, em uma esquina, onde termina o movimento. Fica muito exposta ao movimento de carros e ônibus e o feirante não se preocupa em chamar a atenção dos consumidores. A banca de dentro parece ser mais integrada ao ambiente de intimidade. Terminada a negociação, o vendedor abre mão de centavos, arredondando o preço, para receber uma nota de cinco reais das mãos do comprador. Mas fica de olho na mão dele em um olhar furtivo e ostensivo. Quer logo “botar a mão no dinheiro”. No caso da venda de feijões o produto fica exposto, em quatro qualidades distintas (mulatinho, vermelho, manteiga, etc), na forma “a granel”. Diferente do supermercado, que oferece o alimento embalado em uma prateleira com marcas distintas dispostas lado a lado, ali o que ocorre são caixas em paralelo, não tão bem alinhadas uma com a outra, e um “pegador” de metal único que serve para todas simultaneamente. Há, no mercado, uma padronização para a apresentação da mercadoria, mas no comércio, na rua, cada vendedor arruma o produto de acordo com o seu gosto pessoal. O uso do termo “fazer feira” é bem diferente do “ir ao supermercado”. Pois quem “faz a feira” são as pessoas e este costume não está tão associado a um espaço delimitado como é o supermercado.
Na grande rede capitalista, ocorre não muito mais do que um “bom dia” ou “boa noite”. Não há praticamente vínculo pessoal entre visitantes e funcionários. A probabilidade dos encontros serem inéditos é de quase cem por cento, pois mesmo que o atendente seja mais antigo na rede o seu rosto não é lembrado. O interessante é que uma forma de memorização destas pessoas pode dar-se quando estas estão associadas a um produto ou espaço específico no local. Então, fulano pode ser parecido com “o atendente que corta a carne em um canto no fundo do corredor”. Ele está sempre naquele lugar realizando a mesma tarefa. Pois ocorre assim também com o feirante que faz um trabalho parecido por detrás a uma bancada específica. É mais fácil guardar a cara do homem da feira, aquele que apela para licenciosidades, do que a do funcionário.
Merece um sorriso o vendedor que interrompe o passeio de alguém na rua. Ele parece receber um visitante em sua casa, tamanha a sua gentileza de demonstrar estar a serviço. Age como um intermediário entre a rua e a “casa”. Não haveria problemas no seu interesse de vendas, pois se recebesse o cliente em casa ofereceria um café. Na rua prevalecem as relações impessoais, mas ali dentro são as pessoas que contam e não os indivíduos. Ninguém fica só, naquele lugar. A forma pessoal difere da interação individual. O “ambiente caseiro” proporcionado entre as barracas espera a reciprocidade dos visitantes. Basta acenar com um gesto que expressa uma intenção de troca.
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sociólogo Guilherme
3 comentários:
É verdade! O espaço das feiras é diferente do espaço de outros estabelecimentos comerciais. Na feira não tem aquele formalismo de atendimento como tem o mercado. Nas compras cria-se um bate-papo e até uma amizade com o feirante. A pessoa que compra não precisa de uma roupa da moda para circular na feira. Vai a feira com muita informalidade, à vontade. A pessoa pode sentar no chão para descansar, encostar-se à barraca e conversar por horas...
Um espaço popular.
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