quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A INFORMALIDADE NAS FEIRAS LIVRES

As feiras urbanas são mercados, ao ar livre, onde a distribuição de produtos alimentícios pode ser feita prevalecendo a intimidade entre vendedores e compradores. Com a modernidade, os supermercados, os shoppings, a internet e também alguns mercados com acesso mais restrito vão concentrando vendas em alguns pontos da cidade onde não há tanta licenciosidade no tratamento, em alguns locais havendo até a mais absoluta impessoalidade.

Impera a descontração nas feiras urbanas. O trato das pessoas é sem o uso de cerimônias. Mesmo sendo chamado pela forma “senhor” um homem mais velho pode receber, em uma outra ocasião, a qualificação de “jovem”. Ou seja, há mais “proximidade” na forma de interagir. Por que tratar todos, velhos e jovens, com a mesma expressão “senhor”? Os visitantes são abordados, com o seu percurso linear interrompido, para o oferecimento dos produtos. Ou mesmo estes são anunciados, por detrás das bancadas, com chamados altos e até brincadeiras. São formas de promoção onde não aparece a impessoalidade. Alguns preços não ficam expostos para a conferência dos interessados, sendo comunicados pela voz dos feirantes. Se o dinheiro não vem trocado não há problemas: dois vendedores de bancas diferentes trocam entre si e depois quem deu as notas recebe o que lhe é devido. E, ainda entre os próprios feirantes, há várias outras trocas: de sacos plásticos vazios ou mesmo dos produtos. Fica clara a “camaradagem” entre eles. Fica demonstrado que, naquele lugar, não está “cada um por si”. A forma amigável não ocorre apenas entre quem vende e quem compra. Está também entre os próprios vendedores. Esta forma aberta acontece com outros indivíduos não tão diretamente envolvidos. É o caso do rapaz que, ao passar entre as barracas de gente conhecida, pede uma banana para comer e não encontra limites. Come de graça. Outra observação pertinente é sobre a distribuição do espaço urbano na feira. A rua é fechada por uma manhã inteira e a passagem de carros, a exceção dos moradores locais e dos próprios trabalhadores , fica proibida. As calçadas ficam ocupadas pelas barracas sem que haja um alinhamento rigoroso entre estas. Quem vai de bicicleta ao local pode parar o meio de transportes atravessado, no meio da pista, sem atrapalhar nenhum pedestre. Carros que vendem produtos ficam parados, com as portas abertas, exatamente ali onde seus donos oferecem as mercadorias.

Os supermercados (grandes, pequenos, de grandes redes, de bairros) produziram um padrão impessoal de relacionamento. Um grande mercado destes, com seus corredores imensos entre uma prateleira e outra, em alguns casos dispõe os produtos em um alinhamento perfeito. Bem diferente da forma mais caótica de uma feira livre. Fica sugerida uma apresentação formal dos produtos, e também uma interação entre as pessoas no local, que não é favorável a intimidades. A sugestão está muito relacionada a publicidade veiculada. Tudo isto não faz das pessoas robôs. Mas a tendência é que, em um ambiente desses, as interações sejam bem mais “frias” do que nas feirinhas. Alguns elementos que compõem o espaço podem indicar uma sensação de distanciamento maior entre os indivíduos, embora sejam puro marketing. Em um local refrigerado, vigiado por câmeras e bem limpo não faltam sinais que o diferenciem das feiras na rua (ao ar livre). Não há o calor do sol (batendo na cara), batedores de carteiras e lama ou mau cheiro. Além destas qualidades mencionadas reforçarem a propaganda das grandes redes, a de que elas oferecem conforto e segurança, a ênfase nelas (e não na impessoalidade do local) apenas desloca o problema que deve merecer foco. A comparação com as feiras traz melhores resultados. Os shoppings criam um ambiente isolado do resto da cidade. As compras na internet, apesar de valerem dinheiro, pressupõem interações mais virtuais. Outros mercados urbanos fixos, diferentes das feiras livres que ocupam o local apenas provisoriamente, acabam criando outros critérios para a seleção do público e não são tão informais como as feirinhas. O marketing para esses mercados mais formais é a “alma do negócio”.

As feiras merecem ser preservadas. São patrimônios culturais urbanos que fazem uma conexão com as áreas rurais. Passear em uma delas dá a impressão de que a cidade ficou “pra trás”. Muitas delas são pontos de distribuição de produtos agrícolas oriundos do interior. Finalmente, estão sujeitas ao tempo, assim como estão áreas de produção rural que sofrem com excesso de chuvas ou calor mais intenso. Esses pontos de encontro para compra e venda de alimentos, aos quais dedicamos este texto, devem ser valorizados para terem as suas atividades protegidas e promovidas. Ajudam na harmonização do meio ambiente. Mais ainda, são essencialmente mercados urbanos.
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sociólogo Guilherme

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