segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A ARQUITETURA DE CASAS GRANDES E SOBRADOS

Partindo da leitura de Gilberto Freyre sobre a evolução da sociedade patriarcal brasileira vale destacar os seus comentários sobre arquitetura. A assim chamada paisagem social brasileira pode ser plenamente descrita no contexto tradicional de uma sociedade dividida pelo espaço inclusivo de Casas Grandes e senzalas. O aparente paradoxo ganhará relevância quando da urbanização do Brasil onde sobrados e mocambos estarão separados fisicamente. Realizando a transição entre a casa e a rua as soleiras podem ser vistas como passagens materiais marcadas por ritos de entrada e saída. Na qualidade de símbolos deste urbanismo que preserva a intimidade as gelosias ou rótulas são janelas onde é possível ver sem ser visto.

Quem vive nas modernas cidades do país não pode compreender o tradicionalismo da vida comunitária, muito bem descrita por Freyre ao observar o tempo da Colônia, sem ver uma contradição. Pois o universo urbano criado com a chegada de Dom João VI acabou de vez com a predominância dos Engenhos de Açúcar sobre a formação cultural nacional que ainda podia estar associada ao Ciclo do Ouro. O modelo econômico baseado na exportação do açúcar não perde aí a importância, mas o patriarcado perde força quando os mocambos surgem como habitações de escravos e ex-escravos que já não moram no mesmo espaço dos Senhores. A paisagem torna-se heterogênea, começam a surgir as ruas como vias públicas e o abolicionismo começa a fazer parte dos discursos mais famosos principalmente após a proibição do tráfico de cativos. Cada vez mais é preciso perguntar: como é possível uma divisão inclusiva? Nos termos da modernidade seria um absurdo tratar de duas coisas opostas como se assim não o fossem. Melhor ainda, nestes termos, uma oposição necessariamente implicaria uma dualidade exclusiva. Como o “preto no branco”. Nunca inclusiva. Mas em antropologia, no Brasil, é preciso estar aberto para oposições que se relacionam. Sob o risco de, tomando-se esta sociedade por uma ótica da exclusão, uma pretensa mobilidade social moderna perder os seus fundamentos históricos. O que a tornaria retórica vazia da política. É preciso responder a pergunta proposta anteriormente vislumbrando um meio urbano onde é possível escolher entre os códigos da modernidade e da tradição, onde não há obrigações exclusivas com a modernidade. Este é o Brasil de Freyre e Da Matta (Roberto): uma sociedade relacional (nos termos do segundo). Uma vida social dividida entre Senhores e escravos na Colônia não impedia que as senzalas fossem apenas anexos das Casas Grandes, e não um local a parte. Esta mesma separação (a escravidão) que permaneceu por séculos ganhou um atributo urbanístico quando, no século XIX, surgiram os sobrados e os mocambos com um espaço público entre os dois. Nos séculos anteriores, principalmente o XVII, prevalecia a vida privada das Casas Grandes dos Senhores de Engenho de Açucar como uma paisagem homogênea.

As soleiras foram objeto de estudo do antropólogo Arnold Van Gennep na condição de passagens que merecem ritos para a entrada, outros para a saída e mais o que ele chama de “sacrifícios de fundação”. Na sua definição este trânsito ritualizado pode ser dividido em três momentos distintos: um de “separação”, outro de “margem” e mais o de “agregação”. As gelosias,quando dão para a rua, não expõem a intimidade do ambiente doméstico. E têm a vantagem de barrar a entrada do sol forte sem barrar a brisa. Atualmente pode ser encontrada como fosse uma espécie de biombo que divide dois ambientes em uma residência ou outro local. Foi proibida em algumas janelas de sobrados, no século XIX, no Rio de Janeiro, por um administrador local que aderia ao que Freyre chamou de desassombramento como “diretriz” de planejamento urbano. Foram substituídas, em grande parte, de acordo com o autor, pela importação de vidraças inglesas. Estas últimas, mesmo já produzidas aqui, combinaram bem com um projeto maior que foi sendo executado ao longo do XIX de alargamento de vias e iluminação pública mais moderna. O estilo das gelosias é herdeiro da presença moura na Península Ibérica e para o sociólogo pernambucano tem mais a ver com o nosso clima tropical do que outra janela que não dê sombra. Fica uma sugestão, da sua parte: na sua penumbra uma raça brasileira miscigenada foi sendo criada com a presença dos portugueses e africanos (e também árabes e judeus).

Da paisagem da sociedade chega-se às gelosias, passando antes pelas soleiras. Ficou claro o movimento intencional das idéias do texto em direção a reflexão sobre a arquitetura que trata da intimidade. Mas, apesar de pouco desenvolvido o tema aqui, as soleiras são marcos “pra valer” que levam para o espaço público antes não esquecendo dos chamados “sacrifícios de fundação”. Estes são ritos de “margem”, conforme classificação anterior, que neste caso garantem a propriedade do imóvel passando por sua porta principal. Agora, a discussão está mais para o urbanismo do que para decoração de interioes. E, o fato do meio público prevalecer sobre o privado não nega o duplo caráter, sem contradições, das janelas em questão. Funcionam para quem está na rua e também para os familiares residentes. Se a sua utilidade para o público possui mais relevância do que para os residentes, mesmo assim não está excluído o uso interno nas casas. Se geram interações sociais da rua para a casa, nem por isto negam que as mesmas se desenvolvem também no sentido oposto. Portanto, da casa para a rua.
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sociólogo Guilherme

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