Com o objetivo de elaborar uma pergunta a ser feita para devotos de São Francisco sobre a pobreza, pode valer a pena tratar da devoção a outro santo franciscano: Santo Antônio. Pois há um contexto histórico brasileiro onde pode estar situada a prática ritual dedicada ao “Santo Casamenteiro”. Em uma “sociedade relacional” como o Brasil, conforme definição de Roberto da Matta, ser pobre estaria mais associado a ausência de “relações” do que a qualquer outra coisa. Daí a expressão fulano é “bem relacionado” para indicar alguém que não é pobre. Ou, se não é rico financeiramente, mesmo assim dificilmente será identificado como uma pessoa absolutamente sem “posses”. Ao menos se apropriou do código cultural das relações que facilita a mobilidade social no país.
Por uma estratégia de pesquisa serão o foco da análise aqui os considerados não pobres. Não há tentativa de exclusão dos pobres. Ao contrário, de inclusão para efeito de análise. Pois é preciso primeiro sentir-se incluído para depois ser verificada a intensidade deste sentimento. Não pobres então seriam todos que, vendo a si mesmos com uma noção de pertencimento, seriam capazes de demonstrar o grau deste. Ou seja, se pertencem mais ou pertencem menos. Também não há aí uma dicotomia entre o mais e o menos, mas há uma gradação mais positiva e outra mais negativa. E as duas não excluem-se uma a outra.
O contexto histórico de Santo Antônio seria precisamente o das “relações”. Portanto, um relato a partir das relações que suscita e não tanto das negações realizadas. O atributo de “casamenteiro” de Antônio é uma opinião popular, não necessariamente teológica. Mas indicaria a existência de um pensamento representativo, de uma dada coletividade, capaz de acionar os códigos culturais próprios desta. De outro lado, porém sem contradições, o pensamento da Universidade pode estar bem explicitado a partir da categoria “relações” produzida. A história, talvez mítica, de um Santo que promove matrimônios possivelmente ganhará relevância com o uso da expressão “bem relacionado”. Partilhada a provável mitologia, está então celebrado o ritual de uma “comunidade poderosa”. Fica assim definida a “pré-história” de uma espécie de “sociodrama” que, apesar de abençoado por Santo Antônio, coloca em cena um conflito: de uma lado os “bem relacionados” e do outro os não tão bem assim.
Os não pobres, em uma “sociedade relacional” brasileira, possuiriam uma história prestes a ser anunciada. Não seria possível abandonar a situação dramática que “emoldura o quadro”: os “bem relacionados” versus os “não tão bem”. A expectativa é que o entrevistado escolha um dos lados, mas sem perder de vista as relações. A cena montada, mesmo com apreensão na interação, não impedirá o bom desenvolvimento de uma demonstração de troca ou reciprocidade. Afinal, na riqueza ou na pobreza o que está em jogo são (mais uma vez) as relações.
Para deixar de lado as considerações, mais de caráter metodológico, associadas a pesquisa sobre Santo Antônio foi indispensável a provocação de uma tensão que, espera-se, finalize na integração franciscana. O código das relações pode ficar bem expresso pelo uso do termo “bem relacionado”. Porém, já não é tão importante uma decisão sobre relações. A expressão em foco é de uso comum para definir o quão integrada ao meio social brasileiro é a pessoa e também para afirmar uma linguagem que (bem) represente a forma de pensar. Entretanto, as palavras já não dizem muita coisa quando o objetivo é a fraternidade inspirada por São Francisco.
Finalmente, o pensamento mais crítico dá lugar a pergunta final sobre o franciscanismo. Já é possível pensar fraternalmente após o uso do artifício da simulação de uma divisão social. Está criado um roteiro para um “filme” que, para chegar ao “final feliz”, foi preciso testar o “elenco” para saber se o “texto” estava bem “decorado”. Mas a história chegou ao fim. Apesar das provas pelo caminho, todos ficamos inteiros.
Por uma estratégia de pesquisa serão o foco da análise aqui os considerados não pobres. Não há tentativa de exclusão dos pobres. Ao contrário, de inclusão para efeito de análise. Pois é preciso primeiro sentir-se incluído para depois ser verificada a intensidade deste sentimento. Não pobres então seriam todos que, vendo a si mesmos com uma noção de pertencimento, seriam capazes de demonstrar o grau deste. Ou seja, se pertencem mais ou pertencem menos. Também não há aí uma dicotomia entre o mais e o menos, mas há uma gradação mais positiva e outra mais negativa. E as duas não excluem-se uma a outra.
O contexto histórico de Santo Antônio seria precisamente o das “relações”. Portanto, um relato a partir das relações que suscita e não tanto das negações realizadas. O atributo de “casamenteiro” de Antônio é uma opinião popular, não necessariamente teológica. Mas indicaria a existência de um pensamento representativo, de uma dada coletividade, capaz de acionar os códigos culturais próprios desta. De outro lado, porém sem contradições, o pensamento da Universidade pode estar bem explicitado a partir da categoria “relações” produzida. A história, talvez mítica, de um Santo que promove matrimônios possivelmente ganhará relevância com o uso da expressão “bem relacionado”. Partilhada a provável mitologia, está então celebrado o ritual de uma “comunidade poderosa”. Fica assim definida a “pré-história” de uma espécie de “sociodrama” que, apesar de abençoado por Santo Antônio, coloca em cena um conflito: de uma lado os “bem relacionados” e do outro os não tão bem assim.
Os não pobres, em uma “sociedade relacional” brasileira, possuiriam uma história prestes a ser anunciada. Não seria possível abandonar a situação dramática que “emoldura o quadro”: os “bem relacionados” versus os “não tão bem”. A expectativa é que o entrevistado escolha um dos lados, mas sem perder de vista as relações. A cena montada, mesmo com apreensão na interação, não impedirá o bom desenvolvimento de uma demonstração de troca ou reciprocidade. Afinal, na riqueza ou na pobreza o que está em jogo são (mais uma vez) as relações.
Para deixar de lado as considerações, mais de caráter metodológico, associadas a pesquisa sobre Santo Antônio foi indispensável a provocação de uma tensão que, espera-se, finalize na integração franciscana. O código das relações pode ficar bem expresso pelo uso do termo “bem relacionado”. Porém, já não é tão importante uma decisão sobre relações. A expressão em foco é de uso comum para definir o quão integrada ao meio social brasileiro é a pessoa e também para afirmar uma linguagem que (bem) represente a forma de pensar. Entretanto, as palavras já não dizem muita coisa quando o objetivo é a fraternidade inspirada por São Francisco.
Finalmente, o pensamento mais crítico dá lugar a pergunta final sobre o franciscanismo. Já é possível pensar fraternalmente após o uso do artifício da simulação de uma divisão social. Está criado um roteiro para um “filme” que, para chegar ao “final feliz”, foi preciso testar o “elenco” para saber se o “texto” estava bem “decorado”. Mas a história chegou ao fim. Apesar das provas pelo caminho, todos ficamos inteiros.
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sociólogo guilherme
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