quinta-feira, 4 de setembro de 2008

LÍRIOS PARA SANTO ANTÔNIO

O tema da confiança ganha características peculiares quando analisamos a devoção à Santo Antônio. Tratando de rituais, o antropólogo Victor Turner nos apresenta a sua noção de comunitas. Ao pensarmos em nosso país, podemos perceber que em uma dualidade complementar casa e rua há um terceiro estado da vida que remete à um “ Protetor dos pobres” ou “ Santo casamenteiro” que muito nos pode auxiliar no trânsito harmonioso entre um momento de mais afetividade e outro de maior impessoalidade. Para Frei Alex Sandro, existe uma relação entre o abraço do irmão e o de que algumas pessoas, respeitosamente, quase oferecem à imagem do Santo.

Turner parte da dinâmica dos períodos liminares nos ritos de passagem. Estes ritos, em uma Teoria dos Rituais, dividem-se em três fases: separação , margem e agregação. No intervalo de tempo proposto o estado do sujeito ritual é ambíguo. Aí, o indivíduo, pessoa ou grupo não possui nenhuma classificação tradicional, mas também ainda não há qualquer traço de modernidade. Há total negação da estrutura social e, ao mesmo tempo, é quando surgirão as suas primeiras definições. O antropólogo nos confronta, então, com o que ele chama de comunitas, uma comunidade rudimentarmente estruturada e relativamente indiferenciada. É uma relação de características genéricas e necessárias para a existência da sociedade. Todos são iguais nesta comunidade ritual e se alguém exerce um papel referente ao mais alto status não se furtará, assim mesmo, a estar na fantasia dos mais rebaixados. Se outro alguém é pobre, aquele que é o menor de todos, mesmo assim alternará para mostrar-se no papel de quem detêm o poder. Tratamos fantasia como a indumentária do drama ou conforme é descrita nos sonhos.

A confiança vivida quando precisamos começar a nossa socialização nos ambientes em que prevalece o anonimato é muito bem expressa na devoção a Antônio, quem o nosso lar algumas vezes protege. Desta forma o Santo pode ser visto como um mediador entre a casa e a rua. Em uma grande cidade, onde os brasileiros são livres para optar por um código social que visa preservar os laços do parentesco, o que mais encontra-se são homens e mulheres solitários que mesmo dormindo ao relento podem aninhar-se nos “ braços” de Antônio. Por isto, talvez, este seja conhecido como o “Santo do mundo inteiro”. Exatamente pela analogia que pode ser feita entre um mundo situado nas fronteiras entre as nações e outro localizado nas fronteiras entre os domínios privados das cidades. Nestes espaços citadinos intermediários, um povo sem propriedade pode contar com a proteção de um pai superior bem representado por Santo Antônio. Se, como dito antes, este pode proteger as casas, porque então não poderia “ abraçar” os que mesmo sendo mendigos precisam sentir-se em suas próprias casas? Antônio tem todas as condições de guiar os católicos pelo interior do drama da comunitas. Pode ser um mestre de iniciação no rito que, no momento onde a estrutura social está suspensa, proporciona algum afeto mesmo onde somos sujeitos sem nome e quase totalmente sós. Poderá ele vir a ser alguém que nos introduz na comunitas dentro da qual somos alçados a uma elevação espiritual mesmo partindo da mais rebaixada condição da pobreza humana ou da de orfão social absoluto.

De acordo com Frei Alex, um Frade Franciscano conhecedor da devoção à Antônio, a confiança nele pode vir revestida de uma prática cristã bem moderna. E a associação entre os abraços que trocamos entre nós cristãos e o hábito cultural oriundo da Península Ibérica de reverenciar ao Santo com intimidade, que para alguns chega a ser exagerada, existe mesmo. Em uma das missas que compõem e trezena de Santo Antônio, celebrada na Porciúncula de Santana (Niterói), o Frei, presidente da celebração, propôs que todos os presentes se aproximassem mais fisicamente. E vieram os abraços. Fica muito clara agora a divisão das três fases do rito de passagem: na primeira, a da separação, “ quebramos o gelo” e abandonamos uma postura corporal mais rígida; na segunda, a da margem, andamos em direção ao outro em um movimento que, apesar de continuando a ser nós mesmos, nos proporciona adentrar outra realidade humana por meio de um confronto que não chega a ser um conflito, mas já experimentando uma coexistência harmoniosa; na terceira, a da agregação, já estamos frágeis no corpo do outro, mas sem medo de saírmos feridos daquele encontro propiciado pela misericórdia divina. Que tal se observássemos, em um dia fora do horário de missas e sem nos fixarmos na identidade pessoal de quem quer que seja, como ( sua postura e gestos) os devotos vão se chegando em torno do altar de Santo Antônio? Separando as três fases do rito para uma análise, talvez cada uma delas nos diria muitas coisas.

Finalmente, chega-se em uma observação que talvez devesse ser empreendida no início. Sobre os lírios de Antônio. São símbolos que podem surpreender. Pois, se oferecidos a alguém estes podem ganhar as cores da cordialidade, para um desconhecido podem gerar pensamentos confusos de um compromisso que, no caso de uma mulher que receba de um homem ou vice-versa, não poderá ser confirmado. Mas a pergunta que gostaria de deixar no ar é: quando uma linda flor que é oferecida, a não ser que por cordialidade se entenda civilidade, não causa surpresas? Será que outra reação, além desta, é possível? Fica a pergunta.
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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste







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