A sociedade brasileira, na minha visão pessoal embasada em leituras sociológicas, começa a ter vergonha de ser solidária. O individualismo norte-americano é uma expectativa que muitos, nos países pobres, nutrem para estarem mais próximos de uma suposta cidade imaginária possuidora de valores os mais globalizados. E no Brasil, uma classe chamada de emergente não consegue esconder um desconforto: o de não possuir mais habilidade para transitar entre um universo de relações familiares e outro onde a impessoalidade prevalece. A vergonha tem mostrado a sua cara.
A sociedade brasileira é mais solidária quanto mais distante das grandes cidades reside a população. Isto não significa que o meio urbano seja um antro de solitários e nem que o interior do país seja o paraíso dos que buscam viver em coletividade e não sós. O que há são discursos bastante legítimos sobre um interior saudosista e outros igualmente pertinentes sobre a solidão nos grandes centros urbanos. Neste século que se foi, fica mais fácil verificar um discurso desses, pois um dos grandes acontecimentos que trouxeram significativas mudanças nos costumes foi exatamente a urbanização brasileira. Passamos, no início do século XX, de um país agrário para chegarmos ao XXI com uma população de oitenta por cento urbana. Porém, ao tratar de pouca solidariedade urbana não se tem a intenção de, meramente, alimentar o lamento do solitário daqui que espera um dia, quem sabe, voltar para a “terrinha”. O objetivo é demonstrar o processo de desagregação das relações sociais tradicionais quando dá-se esta passagem do rural para o urbano. E mais ainda, deixar transparecer o que chamo de tradicional não como um valor a ser defendido e lembrado com lamentos. Entretanto deixando vir a tona esta noção como uma forma de organização social mais eficaz para controlar a intimidade de cada ser “individual”, que nunca está só.
A América é um sonho de consumo para muitos. E de fato, talvez o povo que mais radicalizou a busca saudável pela liberdade individual foi o norte-americano. Porém, enquanto grande promessa, este individualismo teve muitos efeitos perversos. O sonho de Hollywood, algumas vezes prevendo verdadeiros pesadelos e comoções sociais, foi seguido cegamente (e continua sendo) por multidões “anônimas” inteiras ao redor do mundo. Mas quantas culturas não adotaram esta ideologia como um grande feito de governos e pessoas ao invés de trabalharem efetivamente, digo cotidianamente, pela libertação dos indivíduos perante a sociedade opressora? A América não possui o monopólio da liberdade. Isto seria possível se o “ Império” norte-americano, afora as pequenas tiranias cotidianas, realmente promovesse pelo mundo afora um individualismo sustentado pelo trabalho. Falo de um indivíduo que sustenta a si mesmo, mas também a sua ideologia, com o suor do seu trabalho. Hoje, a América parece ainda não ter ido muito além do que uma estratégia de marketing, o que funcionaria bem se o seu empreendimento estivesse sustentado em bases mais sólidas.
O Brasil chamado de emergente encontra dificuldades para ser novo rico sem perder o melhor jeito para lidar com os primos pobres. Do ponto de vista cultural, tem preferido agir como se o estilo do primo pobre (com raríssimas exceções) devesse ser descartado. Uma exceção pode ser representada, nas Festas de São João, quando as mulheres, em suas caipiras, em todas as cidades brasileiras, borram o batom no rosto. Talvez queiram tornar mais dramática a sua enorme proximidade dos valores sertanejos, no momento máximo do ritual. Outra exceção talvez ocorra nas festas de Reveillon. Na areia da praia, a multidão democrática permite misturar estilos que são bem segregados no cotidiano. As exceções das festas talvez possam reverter o que parece ser a regra, mas o fato é que muito poucos vivem só de festas. O cotidiano é cada vez mais competitivo e este jogo é cada vez menos festivo.
A sociedade brasileira “rica” que não sabe como lidar com parentes e amigos não tão bem sucedidos profissionalmente, ou que não podem pagar por caras sessões de teatro em um momento de lazer (dando alguns exemplos aparentemente aleatórios), está cada vez mais se distanciando do típico malandro que, como poucos, vive na miséria sem perder a classe. Este move-se por estes dois universos distanciados com relativa facilidade. O problema é que não existem mais malandros como os do passado (de acordo com a letra de Chico Buarque) e a malandragem cada vez mais é vista, por essa mesma sociedade chamada emergente, por uma moral duvidosa que condena esse “jeitinho” como sendo uma forma de corrupção (isto que não pode ser verificado).
Comparativamente ao tradicional, o Brasil urbano é menos solidário. A globalização da América não é suficiente para sustentar o individualismo. A maior prova disto pode ser lembrada a partir dos episódios recorrentes de matanças em Universidades norte-americanas seguidas do suicídio do executor. Nem mesmo dentro do seu próprio território o país consegue tornar mais harmônicos interesses individuais compulsivos que, no extremo doentio, levam à barbárie. Isto não é sustentabilidade. De volta ao Brasil, o que vale mesmo é enaltecer a malandragem e lançar um desafio: quem é mais solidário? O malandro é mais solidário do que o brasileiro dito emergente. O primeiro quer melhorar de vida, mas não abandona os familiares e amigos. Mais ainda, no meio urbano, sabe “se virar” como ninguém, pois está atento às oportunidades de escolha que lhe são oferecidas. Não é sufocado pelas relações familiares, mas também não se prende a uma ideologia individualista. Já o “emergente” vê a solidariedade com os mais necessitados como algo para se envergonhar. Não o faz por culpa. Mas esse brasileiro se envergonha de olhar para os lados e ver a pobreza. Tem medo de ser flagrado, em público, em uma relação de proximidade com o pobre que é considerada, por este que subiu na vida, promíscua. O ideal da América, fundado em bases frágeis, faz da solidariedade ao pobre uma forma de promiscuidade. E isto é moralmente vergonhoso na visão dos “emergentes”.
A sociedade brasileira é mais solidária quanto mais distante das grandes cidades reside a população. Isto não significa que o meio urbano seja um antro de solitários e nem que o interior do país seja o paraíso dos que buscam viver em coletividade e não sós. O que há são discursos bastante legítimos sobre um interior saudosista e outros igualmente pertinentes sobre a solidão nos grandes centros urbanos. Neste século que se foi, fica mais fácil verificar um discurso desses, pois um dos grandes acontecimentos que trouxeram significativas mudanças nos costumes foi exatamente a urbanização brasileira. Passamos, no início do século XX, de um país agrário para chegarmos ao XXI com uma população de oitenta por cento urbana. Porém, ao tratar de pouca solidariedade urbana não se tem a intenção de, meramente, alimentar o lamento do solitário daqui que espera um dia, quem sabe, voltar para a “terrinha”. O objetivo é demonstrar o processo de desagregação das relações sociais tradicionais quando dá-se esta passagem do rural para o urbano. E mais ainda, deixar transparecer o que chamo de tradicional não como um valor a ser defendido e lembrado com lamentos. Entretanto deixando vir a tona esta noção como uma forma de organização social mais eficaz para controlar a intimidade de cada ser “individual”, que nunca está só.
A América é um sonho de consumo para muitos. E de fato, talvez o povo que mais radicalizou a busca saudável pela liberdade individual foi o norte-americano. Porém, enquanto grande promessa, este individualismo teve muitos efeitos perversos. O sonho de Hollywood, algumas vezes prevendo verdadeiros pesadelos e comoções sociais, foi seguido cegamente (e continua sendo) por multidões “anônimas” inteiras ao redor do mundo. Mas quantas culturas não adotaram esta ideologia como um grande feito de governos e pessoas ao invés de trabalharem efetivamente, digo cotidianamente, pela libertação dos indivíduos perante a sociedade opressora? A América não possui o monopólio da liberdade. Isto seria possível se o “ Império” norte-americano, afora as pequenas tiranias cotidianas, realmente promovesse pelo mundo afora um individualismo sustentado pelo trabalho. Falo de um indivíduo que sustenta a si mesmo, mas também a sua ideologia, com o suor do seu trabalho. Hoje, a América parece ainda não ter ido muito além do que uma estratégia de marketing, o que funcionaria bem se o seu empreendimento estivesse sustentado em bases mais sólidas.
O Brasil chamado de emergente encontra dificuldades para ser novo rico sem perder o melhor jeito para lidar com os primos pobres. Do ponto de vista cultural, tem preferido agir como se o estilo do primo pobre (com raríssimas exceções) devesse ser descartado. Uma exceção pode ser representada, nas Festas de São João, quando as mulheres, em suas caipiras, em todas as cidades brasileiras, borram o batom no rosto. Talvez queiram tornar mais dramática a sua enorme proximidade dos valores sertanejos, no momento máximo do ritual. Outra exceção talvez ocorra nas festas de Reveillon. Na areia da praia, a multidão democrática permite misturar estilos que são bem segregados no cotidiano. As exceções das festas talvez possam reverter o que parece ser a regra, mas o fato é que muito poucos vivem só de festas. O cotidiano é cada vez mais competitivo e este jogo é cada vez menos festivo.
A sociedade brasileira “rica” que não sabe como lidar com parentes e amigos não tão bem sucedidos profissionalmente, ou que não podem pagar por caras sessões de teatro em um momento de lazer (dando alguns exemplos aparentemente aleatórios), está cada vez mais se distanciando do típico malandro que, como poucos, vive na miséria sem perder a classe. Este move-se por estes dois universos distanciados com relativa facilidade. O problema é que não existem mais malandros como os do passado (de acordo com a letra de Chico Buarque) e a malandragem cada vez mais é vista, por essa mesma sociedade chamada emergente, por uma moral duvidosa que condena esse “jeitinho” como sendo uma forma de corrupção (isto que não pode ser verificado).
Comparativamente ao tradicional, o Brasil urbano é menos solidário. A globalização da América não é suficiente para sustentar o individualismo. A maior prova disto pode ser lembrada a partir dos episódios recorrentes de matanças em Universidades norte-americanas seguidas do suicídio do executor. Nem mesmo dentro do seu próprio território o país consegue tornar mais harmônicos interesses individuais compulsivos que, no extremo doentio, levam à barbárie. Isto não é sustentabilidade. De volta ao Brasil, o que vale mesmo é enaltecer a malandragem e lançar um desafio: quem é mais solidário? O malandro é mais solidário do que o brasileiro dito emergente. O primeiro quer melhorar de vida, mas não abandona os familiares e amigos. Mais ainda, no meio urbano, sabe “se virar” como ninguém, pois está atento às oportunidades de escolha que lhe são oferecidas. Não é sufocado pelas relações familiares, mas também não se prende a uma ideologia individualista. Já o “emergente” vê a solidariedade com os mais necessitados como algo para se envergonhar. Não o faz por culpa. Mas esse brasileiro se envergonha de olhar para os lados e ver a pobreza. Tem medo de ser flagrado, em público, em uma relação de proximidade com o pobre que é considerada, por este que subiu na vida, promíscua. O ideal da América, fundado em bases frágeis, faz da solidariedade ao pobre uma forma de promiscuidade. E isto é moralmente vergonhoso na visão dos “emergentes”.
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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste
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