Totalmente fora do tempo já começo a pensar no Carnaval do ano que virá. Neste ano em curso, apenas dois acontecimentos quebrarão a rotina: as Olimpíadas na TV e as Eleições Municipais. Mas o Carnaval, que para alguns já é uma rotina associada a sua profissionalização, continua sendo uma reversão de valores cotidianos. E quando alguém nos diz que a Festa de “momo” é o momento de vestir nossas fantasias, eu prefiro afirmar que é durante este acontecimento que nós as tiramos. E isto, quero deixar claro, não significa uma apologia da nudez física ou outra coisa que não caberia em um texto para um blog de um grupo ligado à Igreja, assim como é o caso da Jufra.
Enquanto podemos assistir jovens malhados disputando medalhas nos Jogos que simbolizam as sociedades saudáveis e que buscam viver em paz, é possível também projetar neles e em suas formas físicas nossas fantasias de disciplina corporal. Não há dúvidas que as Olimpíadas são uma grande Festa e que mobilizam delegações de inúmeros países que representam povos inteiros torcedores pelos seus compatriotas. É uma arena montada, nestes dias que seguem, que na melhor tradição grega está aberta para as “performances” dos “heróis” mitológicos. Mas nenhum grande corredor de longa distância vê-se, de um dia para outro, pronto para vencer. No seu cotidiano, todos os dias e já bem cedo pela manhã, “pinta-se” com as cores do guerreiro e investe permanentemente no seu destino esperado de herói. Com competência, deixa-se levar pelo surpreendente e inesperado: o topo do pódium. Um fragmento de sonho dá-lhe estímulo para seguir em frente. Tão decididos a sermos como atletas olímpicos no nosso dia a dia não pensamos ainda no carnaval do próximo ano. Lá, naqueles dias ainda distantes, somos capazes de vestir roupas de guerreiros, mas talvez para deixar transparecer algo do reverso do que a nossa indumentária quer demonstrar. E neste ponto, entre outros, reside a magia da Festa do carnaval. Ficará definido que somos guerreiros, mas todos (digo os que possuem alguma socialização no mundo do carnaval) saberão (sob os holofotes) que em algum dia do tempo que se fecha em um ciclo fomos o reverso de um guerreiro: quem sabe tenhamos sido homens ou mulheres frágeis.
Quanto as Eleições, estamos nos aproximando do momento máximo da Democracia. A hora do voto é absolutamente singular. É bem verdade que muitas pessoas esquecem em quem votaram, passados pouco mais de um ano e alguns meses. Mas o caráter de participação comunitária mostra o quanto esta “festa” faz de nós brasileiros um povo sem igual. Não quero parecer, com esta afirmação, um fútil patriota. Mas não posso negar ter nascido no auge (1972) do “milagre brasileiro” e que, ainda criançinha, já desfilava (para orgulho do meu país) nas paradas de sete de setembro. O mais interessante, porém, é que no dia das Eleições acontece algo raro: encontramos, nas filas das seções eleitorais, pessoas vizinhas com quem nunca mais conversamos ou pessoas a quem nunca fomos apresentados e, mesmo assim, estão sempre ali. Trocamos olhares como fôssemos amigos de longa data. Este cenário apresentado ocorre de dois em dois anos e cada um dos votantes é chamado a ter algum protagonismo político. A democracia nos permite uma apresentação informal perante o pessoal do TRE. Assim, é permitido ir votar usando sandálias de dedo ou de bermudas. Ao adentrar a sala da seção não apenas operamos uma urna eletrônica. Fazemos mais do que isso. Assinamos nossos nomes como prova de que, apesar de todos os votos individuais valerem a mesma coisa quantitativamente ( aliás para o bem da República), mesmo assim não somos apenas mais um voto entre milhares ou milhões. Somos mais do que isto, ali, naquele instante. Antes desta data especial, aí sim, somos cidadãos comuns sujeitos a regra que manda escolhermos bem o nosso representante político. ( Não tenho dúvidas de o quanto esta reflexão de cada um é importante para o aperfeiçoamento do processo democrático). Mas vestimos a fantasia, muito estimulada pela mídia e pelo TRE, de que tendo feito uma boa escolha eleitoral reflexiva o que fica faltando é unicamente apertar o botão do confirma, na urna, no domingo festivo.
No carnaval tiramos a máscara que nos lembra, a todo instante, a democracia formal em que vivemos em nosso país. Quebramos toda e qualquer formalidade e somos tão ou mais democráticos quando acompanhamos, no percurso dos blocos de rua, pessoas que representam o reverso do status social que nós próprios representamos. No feriado de “momo” não somos brasileiros mais democráticos do que o somos sob as luzes do domingo eleitoral. Mas ao vestirmos, no Carnaval, fantasias de tiranos, é o nosso ridículo que deixamos transparecer. Portanto nos mostramos quase nus.
O andamento do processo eleitoral tem o seu fim no domingo especial. Este não é como um domingo de Carnaval. Mas quem foi que disse que dias de Carnaval só ocorrem uma vez ao ano? A característica destes dias que faz reverter os valores sociais pode ocorrer em outras épocas. Não se trata de reverter, no domingo em questão, uma decisão que já foi tomada anteriormente. Trata-se, isto sim, de virar dos pés à cabeça uma atitude passiva diante das mazelas da cidade. E esta grande virada não deve ser uma pretensão de mudar a cidade, mas apenas uma abertura para o que de melhor existe nas novidades que os novos tempos trazem.
Tentei colocar lado a lado duas grandes Festas com o intuito, no caso dos Jogos e das Eleições, de partilhar temas inevitáveis. E trouxe à baila o Carnaval por considerar que a reversão que ocorre nesta festa pode ser usada para tratar de outras reversões em rituais cotidianos. Ligar a TV para assistir aos jogos no meio da madrugada pode não ser um rito destes cotidianos, mas o fazer no meio do dia por meio de reprises é sim. A mesma coisa pode ser dita sobre um debate decisivo na TV, entre os candidatos a prefeito, que ocorra em um horário não tão agradável aos que têm muito sono e sobre reprises em horários melhores. Creio, também, que reverter um comportamento de eleitor, conforme entendo uma reversão de valores sociais, diz respeito a fazer diferente do que faz um eleitor passivo. A passividade até admite uma boa reflexão para a escolha de um candidato. Mas certamente, ao fim de tudo, não vai além do que prescreve a norma de cansar-se na fila da sessão que (lentamente) vai abrigando “excepcionais” eleitores que “dão tudo de si” simplesmente ao apertarem o “confirma”. Faço aqui uma ironia. Por fim, podemos esperar o próximo carnaval. Mas é possível também perceber ( no dia a dia ) que, mesmo quando consideramo-nos protegidos por máscaras, algo em nós se revela de verdade. Reverter não é esconder. Quem se vê nu, em um contexto ritual, é quem pode escolher outra fantasia. Já quem não se vê, no mesmo contexto, corre o risco de nunca poder trocar a indumentária. Ou se arrisca a no máximo ser livre para modificar um pequeno detalhe, não fazendo grandes mudanças portanto.
Enquanto podemos assistir jovens malhados disputando medalhas nos Jogos que simbolizam as sociedades saudáveis e que buscam viver em paz, é possível também projetar neles e em suas formas físicas nossas fantasias de disciplina corporal. Não há dúvidas que as Olimpíadas são uma grande Festa e que mobilizam delegações de inúmeros países que representam povos inteiros torcedores pelos seus compatriotas. É uma arena montada, nestes dias que seguem, que na melhor tradição grega está aberta para as “performances” dos “heróis” mitológicos. Mas nenhum grande corredor de longa distância vê-se, de um dia para outro, pronto para vencer. No seu cotidiano, todos os dias e já bem cedo pela manhã, “pinta-se” com as cores do guerreiro e investe permanentemente no seu destino esperado de herói. Com competência, deixa-se levar pelo surpreendente e inesperado: o topo do pódium. Um fragmento de sonho dá-lhe estímulo para seguir em frente. Tão decididos a sermos como atletas olímpicos no nosso dia a dia não pensamos ainda no carnaval do próximo ano. Lá, naqueles dias ainda distantes, somos capazes de vestir roupas de guerreiros, mas talvez para deixar transparecer algo do reverso do que a nossa indumentária quer demonstrar. E neste ponto, entre outros, reside a magia da Festa do carnaval. Ficará definido que somos guerreiros, mas todos (digo os que possuem alguma socialização no mundo do carnaval) saberão (sob os holofotes) que em algum dia do tempo que se fecha em um ciclo fomos o reverso de um guerreiro: quem sabe tenhamos sido homens ou mulheres frágeis.
Quanto as Eleições, estamos nos aproximando do momento máximo da Democracia. A hora do voto é absolutamente singular. É bem verdade que muitas pessoas esquecem em quem votaram, passados pouco mais de um ano e alguns meses. Mas o caráter de participação comunitária mostra o quanto esta “festa” faz de nós brasileiros um povo sem igual. Não quero parecer, com esta afirmação, um fútil patriota. Mas não posso negar ter nascido no auge (1972) do “milagre brasileiro” e que, ainda criançinha, já desfilava (para orgulho do meu país) nas paradas de sete de setembro. O mais interessante, porém, é que no dia das Eleições acontece algo raro: encontramos, nas filas das seções eleitorais, pessoas vizinhas com quem nunca mais conversamos ou pessoas a quem nunca fomos apresentados e, mesmo assim, estão sempre ali. Trocamos olhares como fôssemos amigos de longa data. Este cenário apresentado ocorre de dois em dois anos e cada um dos votantes é chamado a ter algum protagonismo político. A democracia nos permite uma apresentação informal perante o pessoal do TRE. Assim, é permitido ir votar usando sandálias de dedo ou de bermudas. Ao adentrar a sala da seção não apenas operamos uma urna eletrônica. Fazemos mais do que isso. Assinamos nossos nomes como prova de que, apesar de todos os votos individuais valerem a mesma coisa quantitativamente ( aliás para o bem da República), mesmo assim não somos apenas mais um voto entre milhares ou milhões. Somos mais do que isto, ali, naquele instante. Antes desta data especial, aí sim, somos cidadãos comuns sujeitos a regra que manda escolhermos bem o nosso representante político. ( Não tenho dúvidas de o quanto esta reflexão de cada um é importante para o aperfeiçoamento do processo democrático). Mas vestimos a fantasia, muito estimulada pela mídia e pelo TRE, de que tendo feito uma boa escolha eleitoral reflexiva o que fica faltando é unicamente apertar o botão do confirma, na urna, no domingo festivo.
No carnaval tiramos a máscara que nos lembra, a todo instante, a democracia formal em que vivemos em nosso país. Quebramos toda e qualquer formalidade e somos tão ou mais democráticos quando acompanhamos, no percurso dos blocos de rua, pessoas que representam o reverso do status social que nós próprios representamos. No feriado de “momo” não somos brasileiros mais democráticos do que o somos sob as luzes do domingo eleitoral. Mas ao vestirmos, no Carnaval, fantasias de tiranos, é o nosso ridículo que deixamos transparecer. Portanto nos mostramos quase nus.
O andamento do processo eleitoral tem o seu fim no domingo especial. Este não é como um domingo de Carnaval. Mas quem foi que disse que dias de Carnaval só ocorrem uma vez ao ano? A característica destes dias que faz reverter os valores sociais pode ocorrer em outras épocas. Não se trata de reverter, no domingo em questão, uma decisão que já foi tomada anteriormente. Trata-se, isto sim, de virar dos pés à cabeça uma atitude passiva diante das mazelas da cidade. E esta grande virada não deve ser uma pretensão de mudar a cidade, mas apenas uma abertura para o que de melhor existe nas novidades que os novos tempos trazem.
Tentei colocar lado a lado duas grandes Festas com o intuito, no caso dos Jogos e das Eleições, de partilhar temas inevitáveis. E trouxe à baila o Carnaval por considerar que a reversão que ocorre nesta festa pode ser usada para tratar de outras reversões em rituais cotidianos. Ligar a TV para assistir aos jogos no meio da madrugada pode não ser um rito destes cotidianos, mas o fazer no meio do dia por meio de reprises é sim. A mesma coisa pode ser dita sobre um debate decisivo na TV, entre os candidatos a prefeito, que ocorra em um horário não tão agradável aos que têm muito sono e sobre reprises em horários melhores. Creio, também, que reverter um comportamento de eleitor, conforme entendo uma reversão de valores sociais, diz respeito a fazer diferente do que faz um eleitor passivo. A passividade até admite uma boa reflexão para a escolha de um candidato. Mas certamente, ao fim de tudo, não vai além do que prescreve a norma de cansar-se na fila da sessão que (lentamente) vai abrigando “excepcionais” eleitores que “dão tudo de si” simplesmente ao apertarem o “confirma”. Faço aqui uma ironia. Por fim, podemos esperar o próximo carnaval. Mas é possível também perceber ( no dia a dia ) que, mesmo quando consideramo-nos protegidos por máscaras, algo em nós se revela de verdade. Reverter não é esconder. Quem se vê nu, em um contexto ritual, é quem pode escolher outra fantasia. Já quem não se vê, no mesmo contexto, corre o risco de nunca poder trocar a indumentária. Ou se arrisca a no máximo ser livre para modificar um pequeno detalhe, não fazendo grandes mudanças portanto.
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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste
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