quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A INFORMALIDADE NAS FEIRAS LIVRES (CONTINUA)

As feiras urbanas possuem a marca das relações pessoais. Há uma forma de relacionamento entre feirantes, compradores e outros que cuida sempre do acolhimento dos visitantes. Em um supermercado, de uma grande rede, o tratamento pode ser o mais impessoal. Mas entre as bancas, fechando a rua, a feirinha não permite o anonimato. Sempre é preciso conhecer alguém.

O comprador pode ser recebido com um aperto de mãos e ser lembrado, pelo vendedor, do contato da semana anterior. Um homem, que oferece melancia, espera do consumidor uma prova do seu produto. Um pedaço da fruta é ingerido ali mesmo, e de graça, como uma forma de estabelecer um elo de confiança. Não pode ser recusada a delicadeza. Algumas feiras são vistas como comércios de bairro, pois não são muito distantes das residências das pessoas. A relação de vizinhança traz qualidades que só são encontradas no costume de ir fazer compras no local em questão. É possível transitar pelo lugar com trajes domésticos e os próprios vendedores podem estar vestidos com bermudas e chinelos. O jeito menos formal de vestir-se lembra facilmente a proximidade física do local e esta propriedade geográfica implica uma série de características: não é necessário, em alguns casos, o uso de carros ou ônibus para chegar até lá; a descontração é a mesma que ocorre entre vizinhos que se conhecem a muitos anos; ir até lá pode não ser o único objetivo do comprador, mas o passeio em si mesmo pode ser mais importante do que atingir o local definido no espaço. A facilidade do acesso dos vizinhos pode provocar nestes um comportamento igual ao das pessoas que interagem dentro da sua própria cozinha: carregando nas mãos as raízes de aipim como se tivessem acabado de colhê-los em uma horta doméstica; o vendedor explicando para o morador, por sua própria iniciativa, a forma como deve ser cozido o alimento; o produto sendo apresentado para a compra tendo sido cortado na frente do interessado. A barraca com as raízes fica bem no miolo da feirinha. Existe uma concorrente que fica localizada na saída do lugar, em uma esquina, onde termina o movimento. Fica muito exposta ao movimento de carros e ônibus e o feirante não se preocupa em chamar a atenção dos consumidores. A banca de dentro parece ser mais integrada ao ambiente de intimidade. Terminada a negociação, o vendedor abre mão de centavos, arredondando o preço, para receber uma nota de cinco reais das mãos do comprador. Mas fica de olho na mão dele em um olhar furtivo e ostensivo. Quer logo “botar a mão no dinheiro”. No caso da venda de feijões o produto fica exposto, em quatro qualidades distintas (mulatinho, vermelho, manteiga, etc), na forma “a granel”. Diferente do supermercado, que oferece o alimento embalado em uma prateleira com marcas distintas dispostas lado a lado, ali o que ocorre são caixas em paralelo, não tão bem alinhadas uma com a outra, e um “pegador” de metal único que serve para todas simultaneamente. Há, no mercado, uma padronização para a apresentação da mercadoria, mas no comércio, na rua, cada vendedor arruma o produto de acordo com o seu gosto pessoal. O uso do termo “fazer feira” é bem diferente do “ir ao supermercado”. Pois quem “faz a feira” são as pessoas e este costume não está tão associado a um espaço delimitado como é o supermercado.

Na grande rede capitalista, ocorre não muito mais do que um “bom dia” ou “boa noite”. Não há praticamente vínculo pessoal entre visitantes e funcionários. A probabilidade dos encontros serem inéditos é de quase cem por cento, pois mesmo que o atendente seja mais antigo na rede o seu rosto não é lembrado. O interessante é que uma forma de memorização destas pessoas pode dar-se quando estas estão associadas a um produto ou espaço específico no local. Então, fulano pode ser parecido com “o atendente que corta a carne em um canto no fundo do corredor”. Ele está sempre naquele lugar realizando a mesma tarefa. Pois ocorre assim também com o feirante que faz um trabalho parecido por detrás a uma bancada específica. É mais fácil guardar a cara do homem da feira, aquele que apela para licenciosidades, do que a do funcionário.


Merece um sorriso o vendedor que interrompe o passeio de alguém na rua. Ele parece receber um visitante em sua casa, tamanha a sua gentileza de demonstrar estar a serviço. Age como um intermediário entre a rua e a “casa”. Não haveria problemas no seu interesse de vendas, pois se recebesse o cliente em casa ofereceria um café. Na rua prevalecem as relações impessoais, mas ali dentro são as pessoas que contam e não os indivíduos. Ninguém fica só, naquele lugar. A forma pessoal difere da interação individual. O “ambiente caseiro” proporcionado entre as barracas espera a reciprocidade dos visitantes. Basta acenar com um gesto que expressa uma intenção de troca.
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sociólogo Guilherme

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A INFORMALIDADE NAS FEIRAS LIVRES

As feiras urbanas são mercados, ao ar livre, onde a distribuição de produtos alimentícios pode ser feita prevalecendo a intimidade entre vendedores e compradores. Com a modernidade, os supermercados, os shoppings, a internet e também alguns mercados com acesso mais restrito vão concentrando vendas em alguns pontos da cidade onde não há tanta licenciosidade no tratamento, em alguns locais havendo até a mais absoluta impessoalidade.

Impera a descontração nas feiras urbanas. O trato das pessoas é sem o uso de cerimônias. Mesmo sendo chamado pela forma “senhor” um homem mais velho pode receber, em uma outra ocasião, a qualificação de “jovem”. Ou seja, há mais “proximidade” na forma de interagir. Por que tratar todos, velhos e jovens, com a mesma expressão “senhor”? Os visitantes são abordados, com o seu percurso linear interrompido, para o oferecimento dos produtos. Ou mesmo estes são anunciados, por detrás das bancadas, com chamados altos e até brincadeiras. São formas de promoção onde não aparece a impessoalidade. Alguns preços não ficam expostos para a conferência dos interessados, sendo comunicados pela voz dos feirantes. Se o dinheiro não vem trocado não há problemas: dois vendedores de bancas diferentes trocam entre si e depois quem deu as notas recebe o que lhe é devido. E, ainda entre os próprios feirantes, há várias outras trocas: de sacos plásticos vazios ou mesmo dos produtos. Fica clara a “camaradagem” entre eles. Fica demonstrado que, naquele lugar, não está “cada um por si”. A forma amigável não ocorre apenas entre quem vende e quem compra. Está também entre os próprios vendedores. Esta forma aberta acontece com outros indivíduos não tão diretamente envolvidos. É o caso do rapaz que, ao passar entre as barracas de gente conhecida, pede uma banana para comer e não encontra limites. Come de graça. Outra observação pertinente é sobre a distribuição do espaço urbano na feira. A rua é fechada por uma manhã inteira e a passagem de carros, a exceção dos moradores locais e dos próprios trabalhadores , fica proibida. As calçadas ficam ocupadas pelas barracas sem que haja um alinhamento rigoroso entre estas. Quem vai de bicicleta ao local pode parar o meio de transportes atravessado, no meio da pista, sem atrapalhar nenhum pedestre. Carros que vendem produtos ficam parados, com as portas abertas, exatamente ali onde seus donos oferecem as mercadorias.

Os supermercados (grandes, pequenos, de grandes redes, de bairros) produziram um padrão impessoal de relacionamento. Um grande mercado destes, com seus corredores imensos entre uma prateleira e outra, em alguns casos dispõe os produtos em um alinhamento perfeito. Bem diferente da forma mais caótica de uma feira livre. Fica sugerida uma apresentação formal dos produtos, e também uma interação entre as pessoas no local, que não é favorável a intimidades. A sugestão está muito relacionada a publicidade veiculada. Tudo isto não faz das pessoas robôs. Mas a tendência é que, em um ambiente desses, as interações sejam bem mais “frias” do que nas feirinhas. Alguns elementos que compõem o espaço podem indicar uma sensação de distanciamento maior entre os indivíduos, embora sejam puro marketing. Em um local refrigerado, vigiado por câmeras e bem limpo não faltam sinais que o diferenciem das feiras na rua (ao ar livre). Não há o calor do sol (batendo na cara), batedores de carteiras e lama ou mau cheiro. Além destas qualidades mencionadas reforçarem a propaganda das grandes redes, a de que elas oferecem conforto e segurança, a ênfase nelas (e não na impessoalidade do local) apenas desloca o problema que deve merecer foco. A comparação com as feiras traz melhores resultados. Os shoppings criam um ambiente isolado do resto da cidade. As compras na internet, apesar de valerem dinheiro, pressupõem interações mais virtuais. Outros mercados urbanos fixos, diferentes das feiras livres que ocupam o local apenas provisoriamente, acabam criando outros critérios para a seleção do público e não são tão informais como as feirinhas. O marketing para esses mercados mais formais é a “alma do negócio”.

As feiras merecem ser preservadas. São patrimônios culturais urbanos que fazem uma conexão com as áreas rurais. Passear em uma delas dá a impressão de que a cidade ficou “pra trás”. Muitas delas são pontos de distribuição de produtos agrícolas oriundos do interior. Finalmente, estão sujeitas ao tempo, assim como estão áreas de produção rural que sofrem com excesso de chuvas ou calor mais intenso. Esses pontos de encontro para compra e venda de alimentos, aos quais dedicamos este texto, devem ser valorizados para terem as suas atividades protegidas e promovidas. Ajudam na harmonização do meio ambiente. Mais ainda, são essencialmente mercados urbanos.
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sociólogo Guilherme

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A POBREZA EM SÃO FRANCISCO

Com o objetivo de elaborar uma pergunta a ser feita para devotos de São Francisco sobre a pobreza, pode valer a pena tratar da devoção a outro santo franciscano: Santo Antônio. Pois há um contexto histórico brasileiro onde pode estar situada a prática ritual dedicada ao “Santo Casamenteiro”. Em uma “sociedade relacional” como o Brasil, conforme definição de Roberto da Matta, ser pobre estaria mais associado a ausência de “relações” do que a qualquer outra coisa. Daí a expressão fulano é “bem relacionado” para indicar alguém que não é pobre. Ou, se não é rico financeiramente, mesmo assim dificilmente será identificado como uma pessoa absolutamente sem “posses”. Ao menos se apropriou do código cultural das relações que facilita a mobilidade social no país.

Por uma estratégia de pesquisa serão o foco da análise aqui os considerados não pobres. Não há tentativa de exclusão dos pobres. Ao contrário, de inclusão para efeito de análise. Pois é preciso primeiro sentir-se incluído para depois ser verificada a intensidade deste sentimento. Não pobres então seriam todos que, vendo a si mesmos com uma noção de pertencimento, seriam capazes de demonstrar o grau deste. Ou seja, se pertencem mais ou pertencem menos. Também não há aí uma dicotomia entre o mais e o menos, mas há uma gradação mais positiva e outra mais negativa. E as duas não excluem-se uma a outra.

O contexto histórico de Santo Antônio seria precisamente o das “relações”. Portanto, um relato a partir das relações que suscita e não tanto das negações realizadas. O atributo de “casamenteiro” de Antônio é uma opinião popular, não necessariamente teológica. Mas indicaria a existência de um pensamento representativo, de uma dada coletividade, capaz de acionar os códigos culturais próprios desta. De outro lado, porém sem contradições, o pensamento da Universidade pode estar bem explicitado a partir da categoria “relações” produzida. A história, talvez mítica, de um Santo que promove matrimônios possivelmente ganhará relevância com o uso da expressão “bem relacionado”. Partilhada a provável mitologia, está então celebrado o ritual de uma “comunidade poderosa”. Fica assim definida a “pré-história” de uma espécie de “sociodrama” que, apesar de abençoado por Santo Antônio, coloca em cena um conflito: de uma lado os “bem relacionados” e do outro os não tão bem assim.

Os não pobres, em uma “sociedade relacional” brasileira, possuiriam uma história prestes a ser anunciada. Não seria possível abandonar a situação dramática que “emoldura o quadro”: os “bem relacionados” versus os “não tão bem”. A expectativa é que o entrevistado escolha um dos lados, mas sem perder de vista as relações. A cena montada, mesmo com apreensão na interação, não impedirá o bom desenvolvimento de uma demonstração de troca ou reciprocidade. Afinal, na riqueza ou na pobreza o que está em jogo são (mais uma vez) as relações.

Para deixar de lado as considerações, mais de caráter metodológico, associadas a pesquisa sobre Santo Antônio foi indispensável a provocação de uma tensão que, espera-se, finalize na integração franciscana. O código das relações pode ficar bem expresso pelo uso do termo “bem relacionado”. Porém, já não é tão importante uma decisão sobre relações. A expressão em foco é de uso comum para definir o quão integrada ao meio social brasileiro é a pessoa e também para afirmar uma linguagem que (bem) represente a forma de pensar. Entretanto, as palavras já não dizem muita coisa quando o objetivo é a fraternidade inspirada por São Francisco.

Finalmente, o pensamento mais crítico dá lugar a pergunta final sobre o franciscanismo. Já é possível pensar fraternalmente após o uso do artifício da simulação de uma divisão social. Está criado um roteiro para um “filme” que, para chegar ao “final feliz”, foi preciso testar o “elenco” para saber se o “texto” estava bem “decorado”. Mas a história chegou ao fim. Apesar das provas pelo caminho, todos ficamos inteiros.
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sociólogo guilherme

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A ARQUITETURA DE CASAS GRANDES E SOBRADOS

Partindo da leitura de Gilberto Freyre sobre a evolução da sociedade patriarcal brasileira vale destacar os seus comentários sobre arquitetura. A assim chamada paisagem social brasileira pode ser plenamente descrita no contexto tradicional de uma sociedade dividida pelo espaço inclusivo de Casas Grandes e senzalas. O aparente paradoxo ganhará relevância quando da urbanização do Brasil onde sobrados e mocambos estarão separados fisicamente. Realizando a transição entre a casa e a rua as soleiras podem ser vistas como passagens materiais marcadas por ritos de entrada e saída. Na qualidade de símbolos deste urbanismo que preserva a intimidade as gelosias ou rótulas são janelas onde é possível ver sem ser visto.

Quem vive nas modernas cidades do país não pode compreender o tradicionalismo da vida comunitária, muito bem descrita por Freyre ao observar o tempo da Colônia, sem ver uma contradição. Pois o universo urbano criado com a chegada de Dom João VI acabou de vez com a predominância dos Engenhos de Açúcar sobre a formação cultural nacional que ainda podia estar associada ao Ciclo do Ouro. O modelo econômico baseado na exportação do açúcar não perde aí a importância, mas o patriarcado perde força quando os mocambos surgem como habitações de escravos e ex-escravos que já não moram no mesmo espaço dos Senhores. A paisagem torna-se heterogênea, começam a surgir as ruas como vias públicas e o abolicionismo começa a fazer parte dos discursos mais famosos principalmente após a proibição do tráfico de cativos. Cada vez mais é preciso perguntar: como é possível uma divisão inclusiva? Nos termos da modernidade seria um absurdo tratar de duas coisas opostas como se assim não o fossem. Melhor ainda, nestes termos, uma oposição necessariamente implicaria uma dualidade exclusiva. Como o “preto no branco”. Nunca inclusiva. Mas em antropologia, no Brasil, é preciso estar aberto para oposições que se relacionam. Sob o risco de, tomando-se esta sociedade por uma ótica da exclusão, uma pretensa mobilidade social moderna perder os seus fundamentos históricos. O que a tornaria retórica vazia da política. É preciso responder a pergunta proposta anteriormente vislumbrando um meio urbano onde é possível escolher entre os códigos da modernidade e da tradição, onde não há obrigações exclusivas com a modernidade. Este é o Brasil de Freyre e Da Matta (Roberto): uma sociedade relacional (nos termos do segundo). Uma vida social dividida entre Senhores e escravos na Colônia não impedia que as senzalas fossem apenas anexos das Casas Grandes, e não um local a parte. Esta mesma separação (a escravidão) que permaneceu por séculos ganhou um atributo urbanístico quando, no século XIX, surgiram os sobrados e os mocambos com um espaço público entre os dois. Nos séculos anteriores, principalmente o XVII, prevalecia a vida privada das Casas Grandes dos Senhores de Engenho de Açucar como uma paisagem homogênea.

As soleiras foram objeto de estudo do antropólogo Arnold Van Gennep na condição de passagens que merecem ritos para a entrada, outros para a saída e mais o que ele chama de “sacrifícios de fundação”. Na sua definição este trânsito ritualizado pode ser dividido em três momentos distintos: um de “separação”, outro de “margem” e mais o de “agregação”. As gelosias,quando dão para a rua, não expõem a intimidade do ambiente doméstico. E têm a vantagem de barrar a entrada do sol forte sem barrar a brisa. Atualmente pode ser encontrada como fosse uma espécie de biombo que divide dois ambientes em uma residência ou outro local. Foi proibida em algumas janelas de sobrados, no século XIX, no Rio de Janeiro, por um administrador local que aderia ao que Freyre chamou de desassombramento como “diretriz” de planejamento urbano. Foram substituídas, em grande parte, de acordo com o autor, pela importação de vidraças inglesas. Estas últimas, mesmo já produzidas aqui, combinaram bem com um projeto maior que foi sendo executado ao longo do XIX de alargamento de vias e iluminação pública mais moderna. O estilo das gelosias é herdeiro da presença moura na Península Ibérica e para o sociólogo pernambucano tem mais a ver com o nosso clima tropical do que outra janela que não dê sombra. Fica uma sugestão, da sua parte: na sua penumbra uma raça brasileira miscigenada foi sendo criada com a presença dos portugueses e africanos (e também árabes e judeus).

Da paisagem da sociedade chega-se às gelosias, passando antes pelas soleiras. Ficou claro o movimento intencional das idéias do texto em direção a reflexão sobre a arquitetura que trata da intimidade. Mas, apesar de pouco desenvolvido o tema aqui, as soleiras são marcos “pra valer” que levam para o espaço público antes não esquecendo dos chamados “sacrifícios de fundação”. Estes são ritos de “margem”, conforme classificação anterior, que neste caso garantem a propriedade do imóvel passando por sua porta principal. Agora, a discussão está mais para o urbanismo do que para decoração de interioes. E, o fato do meio público prevalecer sobre o privado não nega o duplo caráter, sem contradições, das janelas em questão. Funcionam para quem está na rua e também para os familiares residentes. Se a sua utilidade para o público possui mais relevância do que para os residentes, mesmo assim não está excluído o uso interno nas casas. Se geram interações sociais da rua para a casa, nem por isto negam que as mesmas se desenvolvem também no sentido oposto. Portanto, da casa para a rua.
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sociólogo Guilherme

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A COZINHA FRANCISCANA

A caminho da barriga a comida passa pela boca, portanto pela cabeça. No sentido inverso da copa o alimento é originário da cozinha. Vale a pena trabalhar com este duplo esquema para a elaboração de uma prática fraterna inspirada por São Francisco de Assis.

No paladar são acionados os códigos gustativos, visual e de odores. Na pança é despertado o código digestivo. Pelas propriedades do olhar o prato é de fácil absorção intelectual. Através do gosto, do cheiro e finalmente do estômago passa-se de um trabalho mental para outro sensível e não apenas contemplativo. Pegando carona neste trânsito entre o belo e o orgânico vale ressaltar que sob os olhos classificamos aromas, separamos um por um e apreciamos individualmente cada um. Mas na digestão cores e sabores diversos tornam-se um único prazer satisfatório. Retoma-se no calor da saciedade a vida reunificada após ter sido criteriosamente dividida nas várias formas para atender aos anseios do intelecto. Ser ou não homem integral ganha aí simbolicamente um sentido de primordial. E, partindo da crença ecológica franciscana, uma cadeia alimentar separada por peixes, aves, mamíferos em geral e seres humanos tem a sua hierarquia abolida dando lugar a mais absoluta igualdade entre todas as espécies unidas pela forma unificada da refeição que satisfaz a fome.

Tomando a metáfora de uma casa separada por seus cômodos, para tratar de rituais, tem-se a comida servida na mesa da copa e que foi produzida na cozinha. Do mesmo fogão ou forno, seguindo por esta dinâmica que leva ao movimento no interior da residência compartimentada, chega-se ao alimento individualizado em travessas, tigelas e vasilhas disposto sob os olhos dos convivas. Se há alguma hierarquia entre o arroz e o feijão ou entre a carne e a salada certo é que foram todos confeccionados a partir da mesma água ou do mesmo sal. Foram pelas mãos de uma mesma cozinheira. Adquiridos no mercado através do mesmo dinheiro. Passa-se, em um tempo cronológico contado regressivamente (de trás pra frente), da salada priorizada algumas vezes (ao invés da carne) a uma igualdade ao redor do fogo (na cozinha) e bem próximo a ele. Pois bem, todos os alimentos são iguais quando queimam perto das chamas e também todos os homens quando formam um círculo em torno do calor. A fraternidade franciscana pode, em algum momento, ser submetida a uma divisão social que fica bem clara pelas posições ocupadas individualmente em torno de uma mesa retangular. Mas este ordenamento não resiste ao ambiente aconchegante da cozinha onde prevalece a irmandade que circunda o fogo.

As duas dinâmicas propostas terminam e têm o seu princípio desenvolvido a partir de uma irmandade franciscana. No trajeto entre a boca e a barriga os diferentes alimentos vão aos poucos se afastando da biologia que os posiciona na cadeia alimentar obedecendo a um ordenamento que leva do considerado mais importante para chegar ao menos. Passam todos a uma mesma condição única que faz a fome saciada. Da mesma forma, em um tempo retrospectivo, os pratos e os homens vão abandonando a sua apresentação exclusiva para tornarem-se todos, cada vez mais no ritual entre a copa e a cozinha, uma única e inclusiva comunidade em torno do fogão. Ninguém fica de fora. Ninguém é melhor do que o outro. Todos estão convidados para formarem uma fraternidade.

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texto enviado pelo sociólogo guilherme para ser publicado no blog peregrinos e forasteiros

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A PEQUENA SANTA ROSA DO VITERBO

No bairro de Santa Rosa, em Niterói (RJ), existe uma capelinha chamada Santa Rosa do Viterbo. O seu tamanho torna-a mais acolhedora. O colorido que envolve as imagens, altares, portas, janelas e outros objetos causa este mesmo efeito.

No mesmo bairro e bem próxima, está a Basílica Nossa Senhora Auxiliadora. É uma Igreja imponente principalmente devido ao tamanho de grandes proporções. O teto é bastante alto. Cúpulas que aumentam ainda mais a sua altura e vitrals (vidros pintados que dão para a parte externa) que deixam a luz do céu entrar fazem da nave (o lado interno do prédio que abriga as celebrações principais) algo mais grandioso. Fileiras enormes de bancos para sentar-se e corredores maiores ainda entre estes apenas reforçam a sensação de que o local é mesmo monumental. Já na Igrejinha vê-se um teto baixo sem cúpulas e sem os vitrals destas. As fileiras de assentos são curtas e os corredores restritos. Na altura reduzida é possível sentir como se o céu estivesse mais próximo do humano, o que pode sugerir uma fraternidade com mais potencial de desenvolvimento. Porém, como não é o propósito aqui fazer apologia de um mundo mais fraterno naquele lugar e já que é preciso lembrar de alturas e profundidades então (é preferível afirmar): a capelinha possui o tamanho certo (sem mais nem menos).

Quanto a cores, é necessário primeiro destacar que induzem a pensamentos sobre tamanhos e dimensões. E , como buscamos a medida certa e sem excessos, eu diria que deve ser algo entre um azul e um vermelho. Nem tanto uma cor e nem tanto a outra. Seria melhor uma pequena nave colorida e não exclusivamente branca. Com as paredes brancas pode ficar a idéia de um espaço aumentado, até mesmo pelo efeito da iluminação. Mas o importante mesmo é que os objetos tenham cores. Contra toda a noção que pode prevalecer de que o ambiente é amplo demais vale a pena oferecer um colorido especial. Como foi dito, sem azuis ou vermelhos exagerados. Entretanto, nunca um branco que predomine. As cores teriam a propriedade de borrar as linhas exatas que as paredes brancas envolvem. Não para ser menos precisa a distribuição do espaço e das tonalidades. Ao contrário, esta reflexão visa imaginar uma Igreja com cores nos seus devidos lugares. No entanto, não é demais manchar com pequenas e delicadas iniciativas um projeto de Catolicismo que não cabe em si mesmo e, pior, pretende transformar os espaços de culto para estes perderem a sua singeleza. Não seriam, portanto, longos traços certos melhor dimensionando o espaço da fé. Seriam , isto sim, muito mais as leves cores sempre presentes.

Impera o dever de realçar os traços que fortalecem a sensação de acolhimento da Capela de Santa Rosa sem forçar o entendimento de exclusividade para uma fraternidade ali instalada. De fato, sentir-se acolhido é antes um sentido para o coração e não tanto um problema de arquitetura. E um coração bem disposto leva, onde quer que esteja batendo (portanto em qualquer lugar de Igreja ou não, pequeno ou não), a sua intenção calorosa. Mas seja na Igrejinha de Santa Rosa ou na de São Jorge no Centro de Niterói, esta também pequenininha, ser católico traz muita satisfação.
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este texto foi escrito pelo sociólogo guilherme e enviado para publicação no blog peregrinos e forasteiros

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A BATALHA DA CRISE

A crise internacional já não ocupa tanto as páginas dos jornais. Parece que o pânico já tem algum alívio. Mas o que vai surgindo mais claramente como resultado do susto que vai ficando pra trás é a forma como os governos atuaram neste período. Merecem destaque: primeiro, o Governo Bush, em seus últimos dias; depois, as medidas de Obama.

Nos EUA após a quebra do banco Leman Brothers nos últimos meses de 2008, teve início o período mais dramático. Neste mesmo período, a candidatura de Obama ganha favoritismo e fica a promessa da retirada das tropas do Iraque. O governo Bush parece já havia se manifestado favorável. Mas considerando as sua guerras empreendidas que expandiram o seu eleitorado ficava sempre no ar a expectativa de outras frentes de batalha. O presidente em fim de mandato ainda dava algumas garantias para a indústria de armamentos. Obama representava o novo. O seu surgimento surpreendente vitorioso sobre a concorrente Hilllary Clinton eliminou as certezas dos empresários das armas. Após dois mandatos seguidos em que foram bastante privilegiados, inclusive sob o manto da reação ao ataque as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, agora temiam perder espaço. O mercado conquistado no Iraque para a expansão de um regime armado democrático e ocidental deixaria de ser a última fronteira do Império norte-americano ainda em desenvolvimento. Ficou a sugestão das finanças globais ameaçando, como resposta ao vazio deixado pelas incertezas futuras, o desenvolvimento socioambiental das economias nacionais.

Com a chegada do novo governo, fica claro em matéria de guerra e finanças globais algum conservadorismo haveria de perdurar por mais tempo. A prova foi a manutenção no cargo do Secretário de Defesa anterior, função importantíssima que responde pelos conflitos em que estão envolvidos os EUA. Se por um lado a tão fundamental disposição ao diálogo aflorou novamente e a preocupação com os direitos humanos retomou o seu merecido lugar de destaque nos discursos, mesmo assim deve ficar registrado o quão intocado permaneceu, ao menos nos primeiros meses do novo governo, o domínio imposto com sangue ao mundo árabe. Quanto as finanças, deve ser lembrada a aparência de heterodoxia nas medidas anti-crise do novo presidente. O Estado interveio sem encontrar limites na economia. Ortodoxo seria não interferir. Foram gastos centenas de bilhões de dólares para salvar grandes empresas privadas(as maiores). Mas muito pouco foi exigido das mesmas que não se viram tão obrigadas com a manutenção dos empregos. O que foi visto foi uma tremenda socialização dos prejuízos e uma “ação entre amigos” que assegurou, além de um zelo excessivo da parte das instituições financeiras para não emprestar dinheiro e bônus milionários para seus executivos, a manutenção de uma ordem concentradora de riquezas. Mais recentemente, em junho, foi anunciada a retirada das tropas americanas do Iraque. Agora os soldados não ocupam mais os centros urbanos se não forem convocados. Permaneceram acampados nas zonas rurais e áreas de fronteira. Em menos de 24 horas, quem acompanha os jornais diariamente leu, o já esperado retorno ao Afeganistão foi noticiado com alarde. Pois iniciado o recuo lento e gradativo (porém efetivo) no Iraque, imediatamente quatro mil soldados são novamente empregados no Afeganistão. E então a “economia de guerra” não parou em nenhum instante e seus homens armados não descansaram jamais. Cada vez mais fácil é possível perceber que Obama não contrariou os interesses dos empresários de armas americanos quando não se esforçou para opor-se aos “mercados cativos” das suas indústrias. O Afeganistão foi uma prova. Embora mereça registro a retirada do Iraque como uma amostra de que, temporariamente, o potencial para a ampliação de mercados consumidores de armamento foi anulado.

A crise que levou medo a partir dos acontecimentos na América de Bush e que prossegue sob o comando de Obama está intimamente relacionada a indústria da guerra e aos seus mercados em processo de expansão. Porém, a guerra não é negociada em bolsas de valores e o petróleo costuma ser o produto afim que recebe cotação diária em bolsas por intermédio das suas sociedades anônimas. Daí talvez a dificuldade de tornar público um discurso de “economia de guerra” quando as análises econômicas atentam mais para o potencial lucrativo do petróleo do que para o destrutivo da guerra. Tanto um quanto o outro não são produtos sustentáveis. O melhor é que a humanidade acabe com a guerra antes que a guerra destrua a humanidade.
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Este texto foi enviado pelo sociólogo Guilherme para postagem no blog peregrinos e forasteiros

terça-feira, 24 de março de 2009

MUITO PRECONCEITO E ALGUMA VIOLÊNCIA ASSOCIADOS AO USO DA MACONHA

Dizer, como fez o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, que há responsabilidade dos usuários de drogas pelos conflitos entre a polícia e o tráfico nos morros da Zona Sul carioca (o que assusta a população) faz sentido quando sabe-se que o consumidor morador daqueles bairros alimenta esse comércio ilegal muito mais do que o faz outro que é morador das Zonas Oeste e Norte. Apenas é preciso cuidado para não contribuir mais ainda, mesmo sem intenção, com o preconceito que há com o ato de fumar maconha. A imprensa divulga uma responsabilização maior do usuário e não a sua co-responsabilidade. Uma abordagem superficial do tema , no calor dos acontecimentos, não zelaria por um tratamento mais humano que deve ser dispensado a esse consumidor.

A imagem que o usuário de maconha possui é difusa quanto mais a sua atitude ilícita fica assombreada pelo seu comportamento não visível no espaço público. Uma responsabilização maior deste pela violência urbana do Rio pode torná-lo ainda mais cauteloso de aparecer publicamente. Por outro lado, uma participação conjunta deste nos fatos estando lado a lado com produtores da droga, distribuidores, etc. deixaria transparecer um papel específico desempenhado nesta economia específica. O que permitiria talvez surgisse com menos restrições de publicidade um consumidor legítimo de um produto sem tanto glamour. Ao ocupar as manchetes dos jornais com autoridade singular que afeta, como fator exclusivo, a violência urbana e subjuga a hierarquia do tráfico a pessoa fumante de maconha é representada com um poder excessivo. Se essa “personagem” não aparece facilmente, mesmo assim dela tudo se pode especular. Mais ainda, se não é visto, então gera mais sentenças sobre o seu caráter do que se surgisse em qualquer canto a qualquer hora.

Quanto ao consumo de maconha na Zona Sul e não nas outras áreas da cidade, é aí onde as pessoas têm dinheiro para comprar a mercadoria. É nessa região também que o dinheiro permite consumir algum glamour. Na economia deste estilo o dinheiro vale menos do que as fantasias utilizadas. Já na economia da maconha o dinheiro vale muito mais do que o glamour pode comprar. A sensação causada pelas notícias amplia imensamente o mercado da maconha que é consumida na Zona Sul, para além dela. Então, não se trata tanto de dispor de dinheiro para este fim. Basta algum glamour. O da Zona Sul, é claro. Mas este não é um mercado que possa ter a sua expansão mensurada. Já a economia monetária pode dispensar o estilo em questão, este que só pode interessar aos que o consomem e podem pagar por ele. Aos que querem apenas fazer caixa no negócio o que importa mesmo é o quanto este arrecadou. A importância do dinheiro neste caso mostra com clareza que onde o glamour não tem vez o que impera mesmo são as relações impessoais. E nada mais impessoal do que o dinheiro.

Estas são apenas algumas impressões sobre o uso da maconha que está associado a questões de segurança pública. Não passam mesmo de comentários pouco aprofundados sobre o tema, pois faltou uma pesquisa qualificada. Além do mais, não foi permitido neste espaço especular muito além do que é possibilitado em um contexto de restrição da publicidade do uso da droga. Caso insistisse em elocubrações estaria correndo o risco de dificultar ainda mais a compreensão sobre os fatos. Por fim, caso fosse convincente nas minhas palavras, poderia estar vendendo um pouco do glamour da maconha. Mas não é a intenção deste texto fazer qualquer tipo de apologia do uso da canabis ativa.
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sociólogo Guilherme