sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A IGREJA CATÓLICA COMO MEDIADORA DA POLÍTICA

No Brasil, quando estamos em casa, damos preferência ao descanso, lazer ou trabalho doméstico. Na rua, ficamos satisfeitos ao sabermos que a lei vale igualmente para todos. Neste espaço impessoal, costuma ser divertido um comentário, sobre uma partida final do campeonato de futebol, que coloca dois grandes times em igualdade de condições. Neste mesmo lugar, somos politicamente corretos condenando a exploração das mulheres na cozinha. Nos mostramos mais vigilantes no caminho do trabalho quando paramos nas filas dos ônibus. Afinal de contas, os outros cidadãos enfileirados merecem uma deferência quando se encontram à nossa frente. Aí estamos mais tensos do que se estivéssemos acomodados em frente a televisão, no sofá de casa. Sair de casa deve ser um relativamente tenso trânsito até que possamos adentrar uma privacidade relativa do local de trabalho. Recorremos a ritos de passagem para deixar o lar para trás e encontrar pessoas afins em outros locais diferentes, seja em uma empresa ou uma escola.

Os católicos encontraram um local apropriado para dar conta de seus ritos. Um espaço físico bem favorável para que estes movimentos sejam cada vez mais criativos. E mesmo não sendo no caminho do trabalho ou de casa, trata-se de outro caminhar que adquiriu vida própria, onde o início e o fim podem ser bastante influenciados pela firmeza dos passos. Falo da Nave da Igreja. Dentro dela encontramos um nicho que é o local principal para a reverência cristã: o altar principal. Uma aproximação dele passa a ter uma dinâmica própria quando se é educado para uma Primeira Eucaristia. Não se chega mais próximo como uma criança pequena o faz. Agora, já existe todo um aprendizado da Eucaristia, e o respeito pelo caráter sagrado daquele cantinho se transforma em uma penitência purificadora parecida com o rito de lavar as mãos antes das refeições. Há agora uma comensalidade repleta de significados místicos que pode também fazer do espírito algo mais elevado e alegre. Mas não é o momento mais elevado do Sacramento da Eucaristia que pretendo analisar aqui. Pois uma sociologia que visa observar a vida na sua “ peregrinação” cotidiana, e não o rito mais celebrativo católico, pode e deve optar por confrontar-se com ritos secundários da tradicional religiosidade brasileira. Assim ficamos mais abertos, do ponto de vista sociológico, para uma apreciação do altar da Imaculada Conceição (na Igreja Porciúncula de Santana, em Niterói), e de outros altares. E não precisamos abandonar a Nave para realizar o nosso estudo. Para quem não conhece, este é um altar que fica na lateral da Igreja. Atentos à Imaculada, em uma visita fora do horário da Missa, podemos agora desenvolver uma outra apropriação daquele espaço da Nave. E o estilo de ser católico também torna-se diferente. Mais uma vez, a atenção maior deve ser dada aos caminhos escolhidos para percorrer o interior da Nave; ao jeito mais ou menos decidido com o qual se anda por ali; por fim , ao mesmo jeito com o qual um católico (ou não católico) transita pelas ruas da cidade com o intuito de chegar ao trabalho, voltar para casa ou com qualquer outro objetivo.

Entre a casa e a rua, é possível encontrar ritos ou locais a partir dos quais pode-se estar mais preparado para deixar para trás um estado mais introspectivo e ir ao encontro de posicionamentos mais públicos. Através da mediação destes ritos é permitido alcançar um nível maior de tensão sem que um conflito interior, instaurado, seja motivo de uma preocupação maior do que a que normalmente é absorvida pelo indivíduo considerado saudável. Dentro da Nave das Igrejas, os católicos podem silenciar gradativamente conflitos internos que são verdadeiros transtornos. Da mesma forma, neste ambiente, podem exercitar ritos mais expansivos podendo tornar-se mais abertos a um maior potencial comunicativo. E o nível de tensão pode manter-se sob controle.

Um posicionamento político, devido a uma expressividade necessária, pode tornar-se viável quanto mais um rito individual que comporta confortavelmente a introspecção leva a uma exposição da intimidade (tudo isto se o nível de tensão está sob controle). A cidade produz alguns percursos para atender, cada vez mais de uma forma moderna, às necessidades muito primitivas de cruzar a porta da casa em direção ao mundo exterior e de avançar sobre um território afeito à prática do trabalho. Na fundação de boa parte das cidades brasileiras está a marca da construção de Igrejas e suas Naves. Nos seus interiores a disposição relativa dos altares principais e dos secundários proporciona um condicionamento no comportamento dos católicos que , enquanto ritos, podem ser bem criativos para uma nova forma de ser. Isto dependendo de uma passada segura.
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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste



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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

OLIMPÍADAS, ELEIÇÕES E CARNAVAL

Totalmente fora do tempo já começo a pensar no Carnaval do ano que virá. Neste ano em curso, apenas dois acontecimentos quebrarão a rotina: as Olimpíadas na TV e as Eleições Municipais. Mas o Carnaval, que para alguns já é uma rotina associada a sua profissionalização, continua sendo uma reversão de valores cotidianos. E quando alguém nos diz que a Festa de “momo” é o momento de vestir nossas fantasias, eu prefiro afirmar que é durante este acontecimento que nós as tiramos. E isto, quero deixar claro, não significa uma apologia da nudez física ou outra coisa que não caberia em um texto para um blog de um grupo ligado à Igreja, assim como é o caso da Jufra.

Enquanto podemos assistir jovens malhados disputando medalhas nos Jogos que simbolizam as sociedades saudáveis e que buscam viver em paz, é possível também projetar neles e em suas formas físicas nossas fantasias de disciplina corporal. Não há dúvidas que as Olimpíadas são uma grande Festa e que mobilizam delegações de inúmeros países que representam povos inteiros torcedores pelos seus compatriotas. É uma arena montada, nestes dias que seguem, que na melhor tradição grega está aberta para as “performances” dos “heróis” mitológicos. Mas nenhum grande corredor de longa distância vê-se, de um dia para outro, pronto para vencer. No seu cotidiano, todos os dias e já bem cedo pela manhã, “pinta-se” com as cores do guerreiro e investe permanentemente no seu destino esperado de herói. Com competência, deixa-se levar pelo surpreendente e inesperado: o topo do pódium. Um fragmento de sonho dá-lhe estímulo para seguir em frente. Tão decididos a sermos como atletas olímpicos no nosso dia a dia não pensamos ainda no carnaval do próximo ano. Lá, naqueles dias ainda distantes, somos capazes de vestir roupas de guerreiros, mas talvez para deixar transparecer algo do reverso do que a nossa indumentária quer demonstrar. E neste ponto, entre outros, reside a magia da Festa do carnaval. Ficará definido que somos guerreiros, mas todos (digo os que possuem alguma socialização no mundo do carnaval) saberão (sob os holofotes) que em algum dia do tempo que se fecha em um ciclo fomos o reverso de um guerreiro: quem sabe tenhamos sido homens ou mulheres frágeis.

Quanto as Eleições, estamos nos aproximando do momento máximo da Democracia. A hora do voto é absolutamente singular. É bem verdade que muitas pessoas esquecem em quem votaram, passados pouco mais de um ano e alguns meses. Mas o caráter de participação comunitária mostra o quanto esta “festa” faz de nós brasileiros um povo sem igual. Não quero parecer, com esta afirmação, um fútil patriota. Mas não posso negar ter nascido no auge (1972) do “milagre brasileiro” e que, ainda criançinha, já desfilava (para orgulho do meu país) nas paradas de sete de setembro. O mais interessante, porém, é que no dia das Eleições acontece algo raro: encontramos, nas filas das seções eleitorais, pessoas vizinhas com quem nunca mais conversamos ou pessoas a quem nunca fomos apresentados e, mesmo assim, estão sempre ali. Trocamos olhares como fôssemos amigos de longa data. Este cenário apresentado ocorre de dois em dois anos e cada um dos votantes é chamado a ter algum protagonismo político. A democracia nos permite uma apresentação informal perante o pessoal do TRE. Assim, é permitido ir votar usando sandálias de dedo ou de bermudas. Ao adentrar a sala da seção não apenas operamos uma urna eletrônica. Fazemos mais do que isso. Assinamos nossos nomes como prova de que, apesar de todos os votos individuais valerem a mesma coisa quantitativamente ( aliás para o bem da República), mesmo assim não somos apenas mais um voto entre milhares ou milhões. Somos mais do que isto, ali, naquele instante. Antes desta data especial, aí sim, somos cidadãos comuns sujeitos a regra que manda escolhermos bem o nosso representante político. ( Não tenho dúvidas de o quanto esta reflexão de cada um é importante para o aperfeiçoamento do processo democrático). Mas vestimos a fantasia, muito estimulada pela mídia e pelo TRE, de que tendo feito uma boa escolha eleitoral reflexiva o que fica faltando é unicamente apertar o botão do confirma, na urna, no domingo festivo.

No carnaval tiramos a máscara que nos lembra, a todo instante, a democracia formal em que vivemos em nosso país. Quebramos toda e qualquer formalidade e somos tão ou mais democráticos quando acompanhamos, no percurso dos blocos de rua, pessoas que representam o reverso do status social que nós próprios representamos. No feriado de “momo” não somos brasileiros mais democráticos do que o somos sob as luzes do domingo eleitoral. Mas ao vestirmos, no Carnaval, fantasias de tiranos, é o nosso ridículo que deixamos transparecer. Portanto nos mostramos quase nus.

O andamento do processo eleitoral tem o seu fim no domingo especial. Este não é como um domingo de Carnaval. Mas quem foi que disse que dias de Carnaval só ocorrem uma vez ao ano? A característica destes dias que faz reverter os valores sociais pode ocorrer em outras épocas. Não se trata de reverter, no domingo em questão, uma decisão que já foi tomada anteriormente. Trata-se, isto sim, de virar dos pés à cabeça uma atitude passiva diante das mazelas da cidade. E esta grande virada não deve ser uma pretensão de mudar a cidade, mas apenas uma abertura para o que de melhor existe nas novidades que os novos tempos trazem.

Tentei colocar lado a lado duas grandes Festas com o intuito, no caso dos Jogos e das Eleições, de partilhar temas inevitáveis. E trouxe à baila o Carnaval por considerar que a reversão que ocorre nesta festa pode ser usada para tratar de outras reversões em rituais cotidianos. Ligar a TV para assistir aos jogos no meio da madrugada pode não ser um rito destes cotidianos, mas o fazer no meio do dia por meio de reprises é sim. A mesma coisa pode ser dita sobre um debate decisivo na TV, entre os candidatos a prefeito, que ocorra em um horário não tão agradável aos que têm muito sono e sobre reprises em horários melhores. Creio, também, que reverter um comportamento de eleitor, conforme entendo uma reversão de valores sociais, diz respeito a fazer diferente do que faz um eleitor passivo. A passividade até admite uma boa reflexão para a escolha de um candidato. Mas certamente, ao fim de tudo, não vai além do que prescreve a norma de cansar-se na fila da sessão que (lentamente) vai abrigando “excepcionais” eleitores que “dão tudo de si” simplesmente ao apertarem o “confirma”. Faço aqui uma ironia. Por fim, podemos esperar o próximo carnaval. Mas é possível também perceber ( no dia a dia ) que, mesmo quando consideramo-nos protegidos por máscaras, algo em nós se revela de verdade. Reverter não é esconder. Quem se vê nu, em um contexto ritual, é quem pode escolher outra fantasia. Já quem não se vê, no mesmo contexto, corre o risco de nunca poder trocar a indumentária. Ou se arrisca a no máximo ser livre para modificar um pequeno detalhe, não fazendo grandes mudanças portanto.
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artigo enviado pelo sociólogo guilherme para publicação no blog da juventude franciscana do sudeste

POBRES E “EMERGENTES”

A sociedade brasileira, na minha visão pessoal embasada em leituras sociológicas, começa a ter vergonha de ser solidária. O individualismo norte-americano é uma expectativa que muitos, nos países pobres, nutrem para estarem mais próximos de uma suposta cidade imaginária possuidora de valores os mais globalizados. E no Brasil, uma classe chamada de emergente não consegue esconder um desconforto: o de não possuir mais habilidade para transitar entre um universo de relações familiares e outro onde a impessoalidade prevalece. A vergonha tem mostrado a sua cara.

A sociedade brasileira é mais solidária quanto mais distante das grandes cidades reside a população. Isto não significa que o meio urbano seja um antro de solitários e nem que o interior do país seja o paraíso dos que buscam viver em coletividade e não sós. O que há são discursos bastante legítimos sobre um interior saudosista e outros igualmente pertinentes sobre a solidão nos grandes centros urbanos. Neste século que se foi, fica mais fácil verificar um discurso desses, pois um dos grandes acontecimentos que trouxeram significativas mudanças nos costumes foi exatamente a urbanização brasileira. Passamos, no início do século XX, de um país agrário para chegarmos ao XXI com uma população de oitenta por cento urbana. Porém, ao tratar de pouca solidariedade urbana não se tem a intenção de, meramente, alimentar o lamento do solitário daqui que espera um dia, quem sabe, voltar para a “terrinha”. O objetivo é demonstrar o processo de desagregação das relações sociais tradicionais quando dá-se esta passagem do rural para o urbano. E mais ainda, deixar transparecer o que chamo de tradicional não como um valor a ser defendido e lembrado com lamentos. Entretanto deixando vir a tona esta noção como uma forma de organização social mais eficaz para controlar a intimidade de cada ser “individual”, que nunca está só.

A América é um sonho de consumo para muitos. E de fato, talvez o povo que mais radicalizou a busca saudável pela liberdade individual foi o norte-americano. Porém, enquanto grande promessa, este individualismo teve muitos efeitos perversos. O sonho de Hollywood, algumas vezes prevendo verdadeiros pesadelos e comoções sociais, foi seguido cegamente (e continua sendo) por multidões “anônimas” inteiras ao redor do mundo. Mas quantas culturas não adotaram esta ideologia como um grande feito de governos e pessoas ao invés de trabalharem efetivamente, digo cotidianamente, pela libertação dos indivíduos perante a sociedade opressora? A América não possui o monopólio da liberdade. Isto seria possível se o “ Império” norte-americano, afora as pequenas tiranias cotidianas, realmente promovesse pelo mundo afora um individualismo sustentado pelo trabalho. Falo de um indivíduo que sustenta a si mesmo, mas também a sua ideologia, com o suor do seu trabalho. Hoje, a América parece ainda não ter ido muito além do que uma estratégia de marketing, o que funcionaria bem se o seu empreendimento estivesse sustentado em bases mais sólidas.

O Brasil chamado de emergente encontra dificuldades para ser novo rico sem perder o melhor jeito para lidar com os primos pobres. Do ponto de vista cultural, tem preferido agir como se o estilo do primo pobre (com raríssimas exceções) devesse ser descartado. Uma exceção pode ser representada, nas Festas de São João, quando as mulheres, em suas caipiras, em todas as cidades brasileiras, borram o batom no rosto. Talvez queiram tornar mais dramática a sua enorme proximidade dos valores sertanejos, no momento máximo do ritual. Outra exceção talvez ocorra nas festas de Reveillon. Na areia da praia, a multidão democrática permite misturar estilos que são bem segregados no cotidiano. As exceções das festas talvez possam reverter o que parece ser a regra, mas o fato é que muito poucos vivem só de festas. O cotidiano é cada vez mais competitivo e este jogo é cada vez menos festivo.

A sociedade brasileira “rica” que não sabe como lidar com parentes e amigos não tão bem sucedidos profissionalmente, ou que não podem pagar por caras sessões de teatro em um momento de lazer (dando alguns exemplos aparentemente aleatórios), está cada vez mais se distanciando do típico malandro que, como poucos, vive na miséria sem perder a classe. Este move-se por estes dois universos distanciados com relativa facilidade. O problema é que não existem mais malandros como os do passado (de acordo com a letra de Chico Buarque) e a malandragem cada vez mais é vista, por essa mesma sociedade chamada emergente, por uma moral duvidosa que condena esse “jeitinho” como sendo uma forma de corrupção (isto que não pode ser verificado).

Comparativamente ao tradicional, o Brasil urbano é menos solidário. A globalização da América não é suficiente para sustentar o individualismo. A maior prova disto pode ser lembrada a partir dos episódios recorrentes de matanças em Universidades norte-americanas seguidas do suicídio do executor. Nem mesmo dentro do seu próprio território o país consegue tornar mais harmônicos interesses individuais compulsivos que, no extremo doentio, levam à barbárie. Isto não é sustentabilidade. De volta ao Brasil, o que vale mesmo é enaltecer a malandragem e lançar um desafio: quem é mais solidário? O malandro é mais solidário do que o brasileiro dito emergente. O primeiro quer melhorar de vida, mas não abandona os familiares e amigos. Mais ainda, no meio urbano, sabe “se virar” como ninguém, pois está atento às oportunidades de escolha que lhe são oferecidas. Não é sufocado pelas relações familiares, mas também não se prende a uma ideologia individualista. Já o “emergente” vê a solidariedade com os mais necessitados como algo para se envergonhar. Não o faz por culpa. Mas esse brasileiro se envergonha de olhar para os lados e ver a pobreza. Tem medo de ser flagrado, em público, em uma relação de proximidade com o pobre que é considerada, por este que subiu na vida, promíscua. O ideal da América, fundado em bases frágeis, faz da solidariedade ao pobre uma forma de promiscuidade. E isto é moralmente vergonhoso na visão dos “emergentes”.
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LÍRIOS PARA SANTO ANTÔNIO

O tema da confiança ganha características peculiares quando analisamos a devoção à Santo Antônio. Tratando de rituais, o antropólogo Victor Turner nos apresenta a sua noção de comunitas. Ao pensarmos em nosso país, podemos perceber que em uma dualidade complementar casa e rua há um terceiro estado da vida que remete à um “ Protetor dos pobres” ou “ Santo casamenteiro” que muito nos pode auxiliar no trânsito harmonioso entre um momento de mais afetividade e outro de maior impessoalidade. Para Frei Alex Sandro, existe uma relação entre o abraço do irmão e o de que algumas pessoas, respeitosamente, quase oferecem à imagem do Santo.

Turner parte da dinâmica dos períodos liminares nos ritos de passagem. Estes ritos, em uma Teoria dos Rituais, dividem-se em três fases: separação , margem e agregação. No intervalo de tempo proposto o estado do sujeito ritual é ambíguo. Aí, o indivíduo, pessoa ou grupo não possui nenhuma classificação tradicional, mas também ainda não há qualquer traço de modernidade. Há total negação da estrutura social e, ao mesmo tempo, é quando surgirão as suas primeiras definições. O antropólogo nos confronta, então, com o que ele chama de comunitas, uma comunidade rudimentarmente estruturada e relativamente indiferenciada. É uma relação de características genéricas e necessárias para a existência da sociedade. Todos são iguais nesta comunidade ritual e se alguém exerce um papel referente ao mais alto status não se furtará, assim mesmo, a estar na fantasia dos mais rebaixados. Se outro alguém é pobre, aquele que é o menor de todos, mesmo assim alternará para mostrar-se no papel de quem detêm o poder. Tratamos fantasia como a indumentária do drama ou conforme é descrita nos sonhos.

A confiança vivida quando precisamos começar a nossa socialização nos ambientes em que prevalece o anonimato é muito bem expressa na devoção a Antônio, quem o nosso lar algumas vezes protege. Desta forma o Santo pode ser visto como um mediador entre a casa e a rua. Em uma grande cidade, onde os brasileiros são livres para optar por um código social que visa preservar os laços do parentesco, o que mais encontra-se são homens e mulheres solitários que mesmo dormindo ao relento podem aninhar-se nos “ braços” de Antônio. Por isto, talvez, este seja conhecido como o “Santo do mundo inteiro”. Exatamente pela analogia que pode ser feita entre um mundo situado nas fronteiras entre as nações e outro localizado nas fronteiras entre os domínios privados das cidades. Nestes espaços citadinos intermediários, um povo sem propriedade pode contar com a proteção de um pai superior bem representado por Santo Antônio. Se, como dito antes, este pode proteger as casas, porque então não poderia “ abraçar” os que mesmo sendo mendigos precisam sentir-se em suas próprias casas? Antônio tem todas as condições de guiar os católicos pelo interior do drama da comunitas. Pode ser um mestre de iniciação no rito que, no momento onde a estrutura social está suspensa, proporciona algum afeto mesmo onde somos sujeitos sem nome e quase totalmente sós. Poderá ele vir a ser alguém que nos introduz na comunitas dentro da qual somos alçados a uma elevação espiritual mesmo partindo da mais rebaixada condição da pobreza humana ou da de orfão social absoluto.

De acordo com Frei Alex, um Frade Franciscano conhecedor da devoção à Antônio, a confiança nele pode vir revestida de uma prática cristã bem moderna. E a associação entre os abraços que trocamos entre nós cristãos e o hábito cultural oriundo da Península Ibérica de reverenciar ao Santo com intimidade, que para alguns chega a ser exagerada, existe mesmo. Em uma das missas que compõem e trezena de Santo Antônio, celebrada na Porciúncula de Santana (Niterói), o Frei, presidente da celebração, propôs que todos os presentes se aproximassem mais fisicamente. E vieram os abraços. Fica muito clara agora a divisão das três fases do rito de passagem: na primeira, a da separação, “ quebramos o gelo” e abandonamos uma postura corporal mais rígida; na segunda, a da margem, andamos em direção ao outro em um movimento que, apesar de continuando a ser nós mesmos, nos proporciona adentrar outra realidade humana por meio de um confronto que não chega a ser um conflito, mas já experimentando uma coexistência harmoniosa; na terceira, a da agregação, já estamos frágeis no corpo do outro, mas sem medo de saírmos feridos daquele encontro propiciado pela misericórdia divina. Que tal se observássemos, em um dia fora do horário de missas e sem nos fixarmos na identidade pessoal de quem quer que seja, como ( sua postura e gestos) os devotos vão se chegando em torno do altar de Santo Antônio? Separando as três fases do rito para uma análise, talvez cada uma delas nos diria muitas coisas.

Finalmente, chega-se em uma observação que talvez devesse ser empreendida no início. Sobre os lírios de Antônio. São símbolos que podem surpreender. Pois, se oferecidos a alguém estes podem ganhar as cores da cordialidade, para um desconhecido podem gerar pensamentos confusos de um compromisso que, no caso de uma mulher que receba de um homem ou vice-versa, não poderá ser confirmado. Mas a pergunta que gostaria de deixar no ar é: quando uma linda flor que é oferecida, a não ser que por cordialidade se entenda civilidade, não causa surpresas? Será que outra reação, além desta, é possível? Fica a pergunta.
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O Franciscanismo e o pacifismo

Para tratar do tema da violência, vale a pena desenvolver aqui o que parece ser uma das marcas do modo de vida franciscano: o pacifismo. Trata-se de uma imagem capaz de representar com clareza o Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim como possibilitar uma comparação com personalidades como Mahatma Gandhi ou o Dalai Lama.

E qual a proximidade entre o pacifismo de Francisco e o de Gandhi? Em primeiro lugar, os dois tornaram-se líderes populares. O primeiro, por sua opção pelos pobres e por sua ação romântica de abandonar a riqueza e a família tradicional. O segundo, por representar, na sua luta, um enorme contingente populacional. E porque se opôs ao domínio da Colonização Inglesa, o que lhe trouxe fama. O pacifismo deles tornou-se um ícone de coragem. Assim, enfrentaram humildemente a ordem estabelecida de sua época. Não recorreram às armas para obter sucesso, ao contrário, resolvendo lutar desarmados ou simplesmente, no caso de Francisco, obedecendo a Igreja. O seu comportamento pacífico corajoso certamente foi influenciado por uma educação de elite que queria assumir um papel nobre. Não aceitando a realidade como dada, mas questionando-a. Mais ainda, atuando diretamente em favor do povo e não de um grupo social fechado em si mesmo.

São Francisco e o Dalai Lama têm em comum o fato de serem disponíveis para uma paz interior. Apesar de o líder tibetano ser também um representante político de uma nação ele, além de não lutar pelo separatismo chinês, ameaça renunciar ao seu posto caso os mais jovens tibetanos não adotem o pacifismo para atingir a sua meta. Ou seja, recusa uma guerra contra a China e aceita abandonar a sua função, o que lhe renderá muita meditação. Francisco foi ativamente engajado e não abriu mão de sua perfeita alegria quando as coisas não iam bem. E se deixava levar pela loucura de cantar junto aos pássaros, como se fosse mais um deles. O que fazia da sua condição de irmão menor uma mostra da sua grandeza de espírito. E a sua enorme paciência não era obstáculo para quem viria a se tornar um homem de ação, mais do que de palavras.

Por fim, Francisco representa, no seu legado evangelizador, nada mais do que um estilo do próprio Jesus Cristo. É um jeito particular de viver uma característica bem marcada do Pai, mas que ficou bastante ofuscada na Idade Média. Uma Igreja poderosa como aquela não podia abandonar-se à pobreza, esta que foi amada por Francisco. Este sim, se deixou levar por esta apaixonadamente, mas de corpo inteiro, se entregando por completo. Sofreu estigmas, mas fez uma opção pela qual, mesmo vitimado pela doença, nunca desistiu. Com tanta dor, uma firmeza de caráter destas só era possível com tamanha inteireza de espírito e paz no coração. Foi como Jesus, na Cruz, que questionou a morte, mas que depois entregou o seu espírito confiante e para trazer “paz na terra aos homens por ele amados” .
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Amazônia, Capitalismo e a Praçinha do Vital Brazil

A Praçinha do Vital Brazil é um lugarzinho do bairro (de mesmo nome), em Niterói, bem bonitinho, quando olhado de perto. Existe o interesse de se levar artesãos da cidade para, ali, exporem os seus produtos, o que deveria ser pensado com carinho. Está clara a necessidade de preservação daquela área arborizada. Lembrando a Campanha da Fraternidade de 2007, sobre a Amazônia, um dos sub-temas pode ganhar destaque: o da preservação da vida, naquela floresta. Da maior área de biodiversidade do mundo, motivo da campanha, passamos à praçinha, onde existem alguma vegetação e, principalmente, vida humana. Entre os dois assuntos será levantada, brevemente, uma discussão sobre o aproveitamento econômico daquela micro-região.

A vida na grande Floresta Equatorial brota com facilidade. Mas se perde o tanto quanto. Este parece ser o regime de uma natureza selvagem. E não é de fácil adaptação humana, já que demonstra uma inconstância incompatível com a necessidade de criar raízes fortes. Mas a mesma água abundante de difícil represamento possui grande regularidade, por exemplo, em seu regime de chuvas. Da mesma forma constante, a riqueza de recursos hídricos, associada talvez a uma temperatura quente favorável, pode promover um ambiente muito apropriado a geração da vida, que agora torna-se mais preservada , diferente do que foi dito antes. Por fim, o meio aquático de água doce que impera, associado a outros fatores, proporciona um ambiente ideal para o desenvolvimento de uma maior biodiversidade. Portanto, partimos da total imprevisibilidade para chegarmos a uma forte característica de permanência (onde deixamos para trás grandes contrastes) possibilitadas pela presença do elemento água.

Passando pelas peculiaridades da Amazônia pode-se, já, tratar da preservação da vida humana. O que foi dito sobre biodiversidade e recursos hídricos, em boas quantidades, foi para melhor fundamentar um debate sobre controle ambiental, este que pode levar a um uso mais sofisticado dos conceitos. O objetivo é tornar mais racional um olhar sobre pequenos espaços, neste caso a nossa praçinha, tanto mais quanto melhor for a sua ocupação qualitativa por pessoas humanas.

É a partir desta discussão preliminar que apresentamos o tema do artesanato na praça. E trata-se de um espaço de convivência, não de um terreno abandonado. Aquele local não é uma sobra de terreno (a não ser quando olhado de um ponto de vista pouco criativo) da cidade que se desenvolveu. Ao contrário, é um cantinho que merecia ter acompanhado o ritmo de crescimento da economia regional, tendo, é óbvio, a sua preservação garantida. Mas, quando o assunto é economia, não é de interesse ir fundo, ao menos aqui, no desenvolvimento de um tema que remete a um capitalismo construtivo ou destrutivo. Apenas nos detemos, e não por falta de opção, em um capitalismo não tão acelerado quanto o que parece, em algum momento, levará a cidade a tornar-se um lugar não habitável, dado o seu alto nível de poluição. Portanto, o artesanato é satisfatório. Pode vir a ser uma forma de ocupação do espaço favorável a comunidade do entorno, não funcionando contra ela.

Finalmente, uma praça favorável a vida, e não reprodutora de padrões de violência, pode, sim, servir para tornar a cidade mais harmônica quando esta for confrontada ao seu próprio meio ambiente. Principalmente, se, sobre aquele pequeno terreno, os freqüentadores se deixarem levar pela maior lentidão relativa no ritmo da vida, quando uma das tendências é o meio urbano tornar-se imagem e semelhança de um meio virtual (com comunicação instantânea, o que nem sempre é bom). Para que a Praçinha do Vital Brazil seja favorecida, plenamente, por uma melhor ocupação do território, além do seu uso econômico favorável, seria interessante observá-la armado pelas lentes do controle ambiental. E, valeria a pena “perder”, na verdade ganhar, algum tempo por ali.
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Capitalismo, meio ambiente e participação

O sistema capitalista tem sido analisado, na história, como um modo de produção que leva pouco em consideração um modo de consumo. Traduzindo, a comunidade humana, mobilizada por esta força bem produtiva, por meio da qual constrói a sua morada terrestre, tem dado pouca importância ao fato de que a sua própria existência (a humana) é perecível. Ou seja, ela desconsidera a vida que é consumida cotidianamente. Não seria melhor enxergar que a vida pulsante também está para acontecer no mesmo cotidiano (aparentemente) sem importância? E que este desabrochar depende de nossas ações infinitamente pequenas? Certamente. Partimos de uma crença franciscana sobre a qual vale a pena investirmos nossas energias.

Torna-se necessário tratarmos desta crença em si mesma. Ela é, sem dúvida, inspirada em modernas e sofisticadas concepções de holismo. Este é uma noção influenciada por religiões orientais e a própria ciência física mais moderna. São ciências que nos permitem reduzir todos os grandes fenômenos do universo à condição de muito pequenos (com tendência ao infinitamente pequeno, o mais micro de todos) fatos da vida sobre a Terra, assim como pequenos são os passos de uma formiguinha. Mas, o aspecto baseado em uma moderna teoria dos rituais pode tornar esta dinâmica macro/micro mais compreensível e permití-la estar sensível à nossa presença favorável. Falo dos estudos do antropólogo Victor Turner. Para este, no contexto dos rituais, no momento mais marcado pelas características de uma fase dos ritos de passagem, a fase liminar , tudo o que é associado à símbolos de status superiores, para uma determinada cultura, vem fazer parte da fantasia dos atores sociais da mais baixa classificação, nos termos desta cultura. Da mesma forma, para ele, neste instante, as fantasias dos homens (e mulheres) que ocupam posições de alto poder na estrutura social cotidiana ganham as cores e formas dos elementos indicativos da inferioridade social ou cultural. Isto é o que Turner chama de ritos de reversão de status. Este drama social permite a quem está situado nas camadas superiores da hierarquia estruturada descer para experimentar estar situado abaixo de todos. Igualmente, é possível a ascensão social, mesmo do mais rebaixado da hierarquia, à mais alta e distinta classe. Essa teoria, enriquecida pela contribuição desta reversão, tem de inovadora o fato de ser uma formulação para a ação. A reversão criativa para a ação é quando deixamo-nos humilhar, se somos possuidores de grandes projetos de mudança social, e também fantasiamo-nos de poderosos se, na verdade, somos seres insignificantes. É o sonho, em uma psicologia motivadora, que torna gestos, aparentemente sem importância, elementos para uma real transformação. É o poder que cremos possuir em pouquíssimas quantidades, mas que podemos também crer são grandes feitos da coletividade reunida, em volta de si mesma, para já não ser igual. A crença de que trato aqui, que faz parte de um ritual renovado por uma prática franciscana, faz do pensamento micro/macro algo não estático, mas sim mobilizador. Uma cultura que antes se enquadrava em uma determinada estrutura passa por um tempo de suspensão estrutural para alcançar, por fim, outra forma estruturada. Peço perdão pela repetição do termo, mas o que importa é a noção que quero veicular, não o termo.

Este texto refere-se ao capitalismo como pretexto para tentar demonstrar o processo de não percepção da vida que se perde de forma banal. Não será possível alongar esta análise sobre o sistema. Mas torna-se um imperativo um olhar sobre o nosso consumo cotidiano e as vezes excepcional. Uma vida refeita extraordinariamente, mas também a cada dia, pode não apenas preservar o que de melhor há em nós, como também fazer do nosso meio ambiente algo favorável à nossa ação. Ou, melhor ainda, pode impedir que sejamos barreira para um desenvolvimento que já ocorre, harmoniosamente, queiramos ou não. Certa é a força transformadora desta natureza vigorosa, fora ou dentro de nós, perante a qual colocamos obstáculos. Basta lembrar a grandiosidade de algumas catástrofes naturais e de sua capacidade de instaurar uma nova ordem vital bem mais criativa que a que se perdeu. Podemos começar a perceber a nossa pequenez diante do potencial de vida existente no meio ambiente circundante e até fisicamente distante. E, então, estamos mais dispostos a transformarmos a nós próprios e também mais aptos.

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