Os católicos encontraram um local apropriado para dar conta de seus ritos. Um espaço físico bem favorável para que estes movimentos sejam cada vez mais criativos. E mesmo não sendo no caminho do trabalho ou de casa, trata-se de outro caminhar que adquiriu vida própria, onde o início e o fim podem ser bastante influenciados pela firmeza dos passos. Falo da Nave da Igreja. Dentro dela encontramos um nicho que é o local principal para a reverência cristã: o altar principal. Uma aproximação dele passa a ter uma dinâmica própria quando se é educado para uma Primeira Eucaristia. Não se chega mais próximo como uma criança pequena o faz. Agora, já existe todo um aprendizado da Eucaristia, e o respeito pelo caráter sagrado daquele cantinho se transforma em uma penitência purificadora parecida com o rito de lavar as mãos antes das refeições. Há agora uma comensalidade repleta de significados místicos que pode também fazer do espírito algo mais elevado e alegre. Mas não é o momento mais elevado do Sacramento da Eucaristia que pretendo analisar aqui. Pois uma sociologia que visa observar a vida na sua “ peregrinação” cotidiana, e não o rito mais celebrativo católico, pode e deve optar por confrontar-se com ritos secundários da tradicional religiosidade brasileira. Assim ficamos mais abertos, do ponto de vista sociológico, para uma apreciação do altar da Imaculada Conceição (na Igreja Porciúncula de Santana, em Niterói), e de outros altares. E não precisamos abandonar a Nave para realizar o nosso estudo. Para quem não conhece, este é um altar que fica na lateral da Igreja. Atentos à Imaculada, em uma visita fora do horário da Missa, podemos agora desenvolver uma outra apropriação daquele espaço da Nave. E o estilo de ser católico também torna-se diferente. Mais uma vez, a atenção maior deve ser dada aos caminhos escolhidos para percorrer o interior da Nave; ao jeito mais ou menos decidido com o qual se anda por ali; por fim , ao mesmo jeito com o qual um católico (ou não católico) transita pelas ruas da cidade com o intuito de chegar ao trabalho, voltar para casa ou com qualquer outro objetivo.
Entre a casa e a rua, é possível encontrar ritos ou locais a partir dos quais pode-se estar mais preparado para deixar para trás um estado mais introspectivo e ir ao encontro de posicionamentos mais públicos. Através da mediação destes ritos é permitido alcançar um nível maior de tensão sem que um conflito interior, instaurado, seja motivo de uma preocupação maior do que a que normalmente é absorvida pelo indivíduo considerado saudável. Dentro da Nave das Igrejas, os católicos podem silenciar gradativamente conflitos internos que são verdadeiros transtornos. Da mesma forma, neste ambiente, podem exercitar ritos mais expansivos podendo tornar-se mais abertos a um maior potencial comunicativo. E o nível de tensão pode manter-se sob controle.
Um posicionamento político, devido a uma expressividade necessária, pode tornar-se viável quanto mais um rito individual que comporta confortavelmente a introspecção leva a uma exposição da intimidade (tudo isto se o nível de tensão está sob controle). A cidade produz alguns percursos para atender, cada vez mais de uma forma moderna, às necessidades muito primitivas de cruzar a porta da casa em direção ao mundo exterior e de avançar sobre um território afeito à prática do trabalho. Na fundação de boa parte das cidades brasileiras está a marca da construção de Igrejas e suas Naves. Nos seus interiores a disposição relativa dos altares principais e dos secundários proporciona um condicionamento no comportamento dos católicos que , enquanto ritos, podem ser bem criativos para uma nova forma de ser. Isto dependendo de uma passada segura.
.